Gauguin, a odisseia do artista
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Quarta abordagem cinematográfica sobre o pós-impressionista Paul Gauguin, ("Voyage de Tahitiaka", 2017/18), esta cinebiografia em lançamento nesta quinta-feira (17) na cidade, baseada em "Noa Noa" - os diários de viagem escritos pelo próprio artista - e em uma série de cartas, representa uma espécie de convite ao espectador para aderir a uma colorida e dramática viagem ao lado do pintor aqui interpretado por um Vincent Cassel sempre intenso - e às vezes excessivo, como está em sua veia de ator pouco dado à regras e adepto das visceralidades.

Há uma cena logo no início de "Gauguin - Viagem ao Taiti" que sinaliza ao público sobre o futuro do protagonista. Cansado e entediado da Paris de fins do século XIX, ele manifesta sua intenção de abandonar a cidade e embarcar com destino à Polinésia Francesa, onde espera encontrar inspiração e renovada força criativa. Seus amigos se despedem dele com uma festa: todos têm palavras de admiração e encorajamento diante de seu compromisso com a arte. Mas o olhar fatigado do viajante deixa claro como se sente abandonado e traído. Na hora da verdade, só desculpas vagas: ninguém quis unir-se a ele na aventura. Cassel é sempre ótimo ao alternar ânimos extremos e ele, como protagonista absoluto do filme, sabe exteriorizar alguns momentos à perfeição.
"Gauguin" não ambiciona ser uma biopic canônica. O roteiro está centrado exclusivamente na primeira viagem do pintor ao Taiti, entre 1891 e 93. A solidão, as penúrias econômicas, a saúde cada vez mais debilitada, a ânsia febril para pintar (utilizando até sacos velhos como telas), a incompreensão daqueles que o rodeiam e de quem ficou na Europa.
O diretor Edouard Deluc, pelas mãos de seus quatro roteiristas, esboça com sutileza a personalidade do artista, ressaltando sua oposição ao desumano e ofensivo colonialismo francês. No filme, esta ferida exposta ainda hoje está inserida nas cenas nas quais Gauguin se opõe à imposição da religião cristã sobre os nativos.
O relato então constrói um Gauguin que, ao contrário de seus compatriotas colonizadores, está disposto a aprender e integrar-se a uma cultura tão diferente, e absorver dela (e da paisagem), tudo o que possa ser plasmado em sua obra. A partir dali, a saturação das cores tropicais e a temática do lugar - paisagem e habitantes fundidos - se incorporarão à sua obra, gerando uma nova linguagem que se distancia completamente da tradição artística europeia até então conhecida. O respeito por esta cultura deixa o personagem maravilhado pelo "exotismo" e "primitivismo" do novo entorno, a partir desta visão explorando inclusive novas técnicas como a escultura em madeira e a gravação.
Talvez esse respeito por outras culturas diferentes da sua ele tenha aprendido com a mãe, reconhecidamente uma admiradora da arte pré-colombiana do Peru. Além disso, enfatiza a ideologia de Gauguin de produzir uma arte que é produto de sua imaginação e espirito criador, divorciado da arte mimética como mera reprodução da realidade. E reforça constantemente sua rebeldia e necessidade de busca. A atenção da câmera passa então a ter um enfoque antropológico também sobre os indivíduos do lugar (Mataiera, onde se radicou e sobrevive com absoluta sobriedade) que inspiraram algumas das obras imortais do pintor.
"Gauguin: Viagem ao Taiti" é produção cuidada, às vezes um tanto prolixa. Mas traça um momento crucial na vida do artista, de forma não idealizada, já que retrata seus egoísmos para com suas companheiras afetivas (em especial com a nativa Tehura, paixão e musa por quem cai de amores quando ela conta apenas 13anos). E inclusive explora suas crises de momentânea irracionalidade.
"Chegará um dia em que nossos filhos poderão se dirigir a quem quer se seja, e onde quer que estejam, com o sobrenome de seu pai como carta de apresentação", escreve ele a sua mulher dinamarquesa que deixou na França quando foi para o Taiti, demonstrando decidida fé em si mesmo. E apesar da distância, manteve uma relação de amizade sincera com o colega Van Gogh. Pena que o filme não se refira a esta admiração mútua e à triste honra de não terem alcançado em vida o reconhecimento que mereceram.


