GAÚCHOS VÃO ÀS RUAS PARA FAZER MISÉRIA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
Os gaúchos da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais prometem fazer miséria com o espetáculo de rua que apresentam hoje no Festival Internacional de Londrina (Filo). Eles levam para o Calçadão a história de um gaúcho esperto, que engana todo mundo, mas na hora da morte encontra problemas. O causo será contado em Deus e o Diabo na Terra de Miséria, às 11h30, em frente ao Cine-Teatro Ouro Verde.
Diz a história que, certo dia, o ferreiro Miséria é procurado por dois maltrapilhos que pedem sua ajuda para ferrar a mula em que viajavam. Com pena, Miséria não cobrou pelo serviço. O gaúcho não sabia, entretanto, que os esfarrapados eram São Pedro e Nossa Senhora. Pela generosidade do ferreiro, resolveram conceder-lhe três pedidos. Sem acreditar no assunto, Miséria só pede coisas absurdas.
Só que a malandragem do gaúcho não pára por aí. Ele ainda oferece a alma ao diabo por 20 anos de vida boa. Na hora de acertar as contas, começa a confusão. Ao enganar Deus e o diabo, o malandro mostra toda a sua astúcia e vigarice. Mesmo assim, ganha a torcida do público, garantem os atores.
O texto é uma adaptação do diretor Hamilton Leite para um capítulo do livro Dom Segundo Sombra, do escritor argentino Ricardo Guiraldes (1886-1927). Trata-se de um conto universal com roupagem gaúcha, diz Jean Carlo Carlomagno, ator da montagem que, por problemas de saúde, será substituído em cena pelo diretor. O conto mostra como a miséria ficou pelo mundo. Por isso montamos a farsa gaudéria.
Segundo o ator, o espetáculo tem toda uma contextualização gaúcha. As vestimentas são as tradicionais bombachas, lenço, camisa e botas, e o local da apresentação é demarcado com a erva-mate do chimarrão. A apresentação é incrementada com pernas de pau, fumaça colorida e bombinhas.
As músicas, executadas ao vivo, lembram os desafios nordestinos, mas ao som de instrumentos típicos do Sul do continente, como acordeón, gaita, castanholas, bombo-leguero (espécie de surdo artesanal). Usamos a característica da música para contar o causo em rimas, explica Carlomagno. A trilha foi especialmente composta para o espetáculo por Gustavo Finkler.
O protagonista da história, ao contrário do que possam pensar, não é um típico gaúcho. O ferreiro é interpretado pela atriz Arlete Cunha. No elenco também estão Cíntia Ceccarelli (como Senhora Lilith), Hamilton Leite (Lúcifer e Nossa Senhora), Vera Parenza (o contador do causo) e Binho Sauitzvy (São Pedro e Sangamel, um diabinho que, segundo a lenda, rapta crianças e as devolve as pais dois dias depois).
A Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais surgiu da montagem de Deus e o Diabo..., em 1999. O espetáculo já tem mais de 100 apresentações e foi visto no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e São Paulo, participando de festivais como os de São José dos Campos, Curitiba (FTC) e Belo Horizonte (FIT). Agora, a cooperativa prepara o próximo espetáculo de rua baseado na lenda do Boitatá e, em seguida, inicia a montagem de um espetáculo para sala fechada. Nossa idéia é formar repertório e viajar, comenta Carlomagno.
Pela primeira vez no Filo, a Oigalê acredita no aval e no respaldo do festival aos seus participantes. É um evento superinteressante. Seria legal se cada vez mais tivéssemos algo dessa natureza no Brasil, finaliza. Deus e o Diabo na Terra de Miséria será reapresentado no domingo, às 16 horas, no Zerão.
Deus e o Diabo na Terra de Miséria, com a Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, de Porto Alegre (RS). Adaptação e direção: Hamilton Leite. Com Arlete Cunha, Cíntia Ceccarelli, Hamilton Leite, Vera Parenza e Bino Sauitzvy. Músicas: Gustavo Finkler. Contra-regra: Jean Carlo Carlomagno. Duração: uma hora.


