GAÚCHOS PREENCHEM A CENA
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segunda-feira, 07 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
As atrizes gaúchas Daniela Carmona e Cláudia Sachs elevaram o nível do Filo 2001 com a história de duas andarilhas desnutridas, mas com vitalidade transbordante. Gueto Bufo, apresentado na sexta e sábado no Teatro Zaqueu de Melo, aguçou a sensibilidade do público, a partir do drama ambientado no submundo das ruas. A dimensão utópica do espetáculo revelou, em primeiro lugar, a potência dramatúrgica de Daniela Carmona. No texto, ela procura discutir as limitações dos aleijões do corpo e da alma.
A envolvente Vênus (Daniela Carmona) consegue ser sexy sem os dois braços, realizando a desforra do corpo sobre o espírito. Verborrágica, não se deixa abater pela limitação física, e tem nos cotós dos braços uma agilidade impressionante. Filó (Cláudia Sachs) se expressa com dificuldade e nem por isso deixa de se comunicar com propriedade. Vênus se sente a dona do mundo vivendo na rua sem fronteiras. Elas retiraram afetividade e sensualidade da marginália, onde não há espaço para glamour.
Gueto Bufo é teatro sem concessões. As andarilhas reivindicam o direito à sensualidade, ao amor e à solidariedade. Detonam os pilares dogmáticos da igreja. Daniela Carmona e Cláudia Sachs são atrizes que do pouco retiram o tudo, nesse trabalho orgânico, poético e atordoante. Numa das cenas mais hilariantes, Vênus realiza uma dança do ventre com massagem pélvica. O que fazer quando não há saída? Sonhar. E nesse contexto, elas se valem de uma noite estrelada, para acertar as contas com o ex-namorado de Vênus, já aniquilado.
Nas ruas, Filó e Vênus buscam um reino perdido e encontram, ao final, a sentença vigente para os sem-teto no Brasil. Nesse percurso cronicamente inviável, só restou à dramaturga escolher o caminho funesto das páginas policiais. Na comovente cena, Filó canta ternamente, enquanto o fogo consome as duas e a remota possibilidade de reintegração.
De Porto Alegre, o teatro documentário Hobárccu, de Deborah Finocchiaro, bebeu na fonte de Franklin Cascaes, pesquisador catarinense. A colagem joga foco numa obra restrita aos arquivos da Ilha de Nossa Senhora do Desterro (Cascaes se recusava usar o nome Florianópolis). Apesar de no Brasil esse gênero teatral ser pouco usado, o gosto pelo documento-verdade reinou na Europa dos anos 50 a 70. Com um material inesgotável, Deborah Finocchiaro e Arlete Cunha buscaram a diversidade para mostrar o universo de Cascaes.
Atrizes superlativas, elas exploram ao máximo todos os recursos físicos e reverenciam e negam o trabalho do ator ao mesmo tempo. Instaladas num linóleo circular azul, nesse microcosmo, elas reutilizam a tradição oral ao contar os acontecimentos, além de preencher o universo sonoro com música ao vivo, que comentava os causos de pescadores. A montagem trouxe o mérito de apresentar os desenhos de Franklin Cascaes, projetados em slides. Ele usava recursos da ciência para valorizar a subjetividade.
Completamente desconhecido do público, os traços do desenhista são irmanados com os de Hieronymus Bosch. O holandês retratava demônios, monstros, animais estranhos, fantásticos, metade gente, metade bicho, justamente o material recolhido do inconsciente coletivo dos pescadores catarina.
Hobárccu tem como mérito evidenciar a corrente teatral pouco valorizada, mostrando uma autêntica antropologia teatral e um jorro de informações. É um tipo de montagem mais arriscada, se comparado ao drama. A montagem gaúcha oscilava entre o excessivamente didático ao cômico rasgado. A partir da segunda metade da encenação, o panfletarismo tomou conta do discurso, tornando o espetáculo longo e até cansativo. Os comentários sobre os malefícios da televisão, por exemplo, soaram descabidos e datados.
Ainda do Rio Grande do Sul, o Filo 2001 trouxe uma variação sobre o mesmo tema, quando programou dois espetáculos que buscaram na Idade Média elementos para discutir a esperteza. Dois espetáculos de rua, Deus e o Diabo na Terra da Miséria, da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais; e O Ferreiro e a Morte, do Projeto Viramundos de Passo Fundo, tratam do mesmo assunto: as aventuras do ferreiro Miséria tentando aplicar a Lei de Gerson.
Outro ponto de convergência entre as montagens foi o gauchismo. As duas encenações se escoraram na tradição gaúcha musical e comportamental para inserir a história medieval. Deus e o Diabo... se aproximou do circense, com atores equilibrados em pernas-de-pau, e uma encenação mais clean. Destaque para o potencial vocal da trupe, que mostrou a boa preparação dos atores e o alto nível dos artistas.
A segunda trupe resgatou com O Ferreiro e a Morte a commedia dellarte. A abundância de quiproquós para o tema dramático, com o Miséria ludibriando a morte e assim conhecer uma vida nababesca, aproximou mais essa encenação do público. O ritmo ágil privilegiou a teatralidade e o jogo cênico, valorizando o gesto e a improvisação.


