A tradição, clássica, provém da literatura policial e/ou fantástica do século passado, especialmente através de relatos, entre outros, de Edgar Allan Poe e Gaston Leroux, prosseguindo mais tarde com Agatha Christie. O cinema não ficou indiferente à fascinação pelo tema, e por diversas vezes construiu narrativas brilhantes onde um espaço delimitado - uma casa, uma ilha - significa a impossibilidade da fuga, a ameaça explícita ou insuspeitada e, obviamente, as delícias do suspense. O restaurante de beira de estrada em ‘‘A Floresta Petrificada’’ (Archie Mayo, 1936), a diligência em ‘‘No Tempo das Diligencias’’ (John Ford), 1939) a delegacia no western ‘‘Onde Começa o Inferno’’ (Howard Hawks, 1959), o vagão do metrô em ‘‘O Incidente’’ (Larry Peerce, 1967) e o distrito policial em ‘‘Assault on Precinct 13’’ (John Carpenter, 1977) são apenas algumas referências notáveis de uma longa lista, à qual agora deve se acrescentar ‘‘O Quarto do Pânico’’, que estréia hoje em todo o país (veja a programação de cinema na página 4).
Tudo começa quando Meg Altman (Jodie Foster, em plena forma atlética aos 39 anos), recém divorciada de um magnata da indústria química e acompanhada pela filha adolescente Sarah (Kristen Stwart), compra estranha mansão em plena Manhattan, reformada de acordo com as vontades de seu dono anterior, um entrevado milionário. A casa inclui um ‘‘quarto tecnologicamente seguro’’, especialmente desenhado, oculto e blindado, com ventilação, kit de sobrevivência e telas de circuito interno de tevê que permitem observar os demais ambientes e andares, além de telefone especial. A idéia é que os ocupantes encontrem um refúgio neste encouraçado terrestre, em caso de invasão de estranhos.
Então, durante a primeira noite das duas mulheres na casa, a invasão acontece sob a forma de um desavisado trio de ladrões (Forest Whitaker, Jared Leto e Dwight Yoakam) dispostos a roubar alguma coisa que está guardada justamente no tal quarto. Os invasores são percebidos e Meg e a filha se refugiam na ‘‘fortaleza’’. A partir daí, o filme se entrega a um duelo de engenhos e vontades entre assediadores e assediadas durante toda uma noite de angústia. É hora de conferir habilidades, não apenas dos personagens da ficção que bate na tela durante 126 minutos, mas principalmente de quem conta esta história.
Como exercício de suspense, ‘‘O Quarto do Pânico’’ é bastante aceitável. O diretor David Fincher e seu diretor de fotografia, o franco-iraniano Darius Khondji, constroem diversas sequencias de inegável impacto visual, que acentuam a crescente sensação de confinamento e urgência. A dinâmica dos personagens de Jodie Foster e da garota Kristen Stewart não cai na armadilha do protótipo de super-mulheres, mantendo-se sempre em nível humano; e a credibilidade que imprimem às ações serve muito para compensar algumas incongruências e inconsistências do roteiro. De sua parte, os vilões formam uma excelente trindade, psicologicamente instável, repleta de tensões, suspeitas e traição latente. De novo isto ajuda a desculpar certas debilidades do relato, dissimuladas mas flagrantemente óbvias - e falar mais sobre os descaminhos, estereotipias e previsibilidades desse roteiro de David Koepp (de resto o componente vulnerável do filme) implicaria em desarticular o elemento surpresa do argumento, que é preferível não revelar.
Goste-se ou não de David Fincher - ‘‘Alien 3’’, ‘‘Seven - Os 7 Pecados Capitais’’, ‘‘Vidas em Jogo’’, ‘‘Clube da Luta’’ -, não se pode negar a ele originalidade como contador de histórias, alguém capaz de eleger o delírio quando se espera a sensatez. Embora bem mais (comercialmente?) contido neste ‘‘Panic Room’’, Fincher acaba satisfazendo seu virtuosismo ao provocar autêntica ansiedade e indescritível tensão. E são também por conta de Fincher os dois níveis de leitura possíveis em ‘‘O Quarto do Pânico’’. Na superfície, o que se vê são duas mulheres encurraladas, auxiliadas apenas pelo instinto de sobrevivência. Mas por debaixo do brilho das imagens galopantes do jogo de gato e rato se escondem outros medos: a sede desmedida de riqueza, a resistência gerada da necessidade, a frieza do instinto destruidor, a desestruturação familiar. Elementos que fazem desse filme acima de média algo mais que um eficiente produto do gênero, vale dizer, um inquietante diagnóstico de nosso próprio e angustiante presente.

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