Gato, rato e pânico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
A tradição, clássica, provém da literatura policial e/ou fantástica do século passado, especialmente através de relatos, entre outros, de Edgar Allan Poe e Gaston Leroux, prosseguindo mais tarde com Agatha Christie. O cinema não ficou indiferente à fascinação pelo tema, e por diversas vezes construiu narrativas brilhantes onde um espaço delimitado - uma casa, uma ilha - significa a impossibilidade da fuga, a ameaça explícita ou insuspeitada e, obviamente, as delícias do suspense. O restaurante de beira de estrada em A Floresta Petrificada (Archie Mayo, 1936), a diligência em No Tempo das Diligencias (John Ford), 1939) a delegacia no western Onde Começa o Inferno (Howard Hawks, 1959), o vagão do metrô em O Incidente (Larry Peerce, 1967) e o distrito policial em Assault on Precinct 13 (John Carpenter, 1977) são apenas algumas referências notáveis de uma longa lista, à qual agora deve se acrescentar O Quarto do Pânico, que estréia hoje em todo o país (veja a programação de cinema na página 4).
Tudo começa quando Meg Altman (Jodie Foster, em plena forma atlética aos 39 anos), recém divorciada de um magnata da indústria química e acompanhada pela filha adolescente Sarah (Kristen Stwart), compra estranha mansão em plena Manhattan, reformada de acordo com as vontades de seu dono anterior, um entrevado milionário. A casa inclui um quarto tecnologicamente seguro, especialmente desenhado, oculto e blindado, com ventilação, kit de sobrevivência e telas de circuito interno de tevê que permitem observar os demais ambientes e andares, além de telefone especial. A idéia é que os ocupantes encontrem um refúgio neste encouraçado terrestre, em caso de invasão de estranhos.
Então, durante a primeira noite das duas mulheres na casa, a invasão acontece sob a forma de um desavisado trio de ladrões (Forest Whitaker, Jared Leto e Dwight Yoakam) dispostos a roubar alguma coisa que está guardada justamente no tal quarto. Os invasores são percebidos e Meg e a filha se refugiam na fortaleza. A partir daí, o filme se entrega a um duelo de engenhos e vontades entre assediadores e assediadas durante toda uma noite de angústia. É hora de conferir habilidades, não apenas dos personagens da ficção que bate na tela durante 126 minutos, mas principalmente de quem conta esta história.
Como exercício de suspense, O Quarto do Pânico é bastante aceitável. O diretor David Fincher e seu diretor de fotografia, o franco-iraniano Darius Khondji, constroem diversas sequencias de inegável impacto visual, que acentuam a crescente sensação de confinamento e urgência. A dinâmica dos personagens de Jodie Foster e da garota Kristen Stewart não cai na armadilha do protótipo de super-mulheres, mantendo-se sempre em nível humano; e a credibilidade que imprimem às ações serve muito para compensar algumas incongruências e inconsistências do roteiro. De sua parte, os vilões formam uma excelente trindade, psicologicamente instável, repleta de tensões, suspeitas e traição latente. De novo isto ajuda a desculpar certas debilidades do relato, dissimuladas mas flagrantemente óbvias - e falar mais sobre os descaminhos, estereotipias e previsibilidades desse roteiro de David Koepp (de resto o componente vulnerável do filme) implicaria em desarticular o elemento surpresa do argumento, que é preferível não revelar.
Goste-se ou não de David Fincher - Alien 3, Seven - Os 7 Pecados Capitais, Vidas em Jogo, Clube da Luta -, não se pode negar a ele originalidade como contador de histórias, alguém capaz de eleger o delírio quando se espera a sensatez. Embora bem mais (comercialmente?) contido neste Panic Room, Fincher acaba satisfazendo seu virtuosismo ao provocar autêntica ansiedade e indescritível tensão. E são também por conta de Fincher os dois níveis de leitura possíveis em O Quarto do Pânico. Na superfície, o que se vê são duas mulheres encurraladas, auxiliadas apenas pelo instinto de sobrevivência. Mas por debaixo do brilho das imagens galopantes do jogo de gato e rato se escondem outros medos: a sede desmedida de riqueza, a resistência gerada da necessidade, a frieza do instinto destruidor, a desestruturação familiar. Elementos que fazem desse filme acima de média algo mais que um eficiente produto do gênero, vale dizer, um inquietante diagnóstico de nosso próprio e angustiante presente.


