Quando os portugueses chegaram por estas bandas, além de se admirarem com a exuberância da flora e fauna brasileiras, algo a mais chamou a atenção: algumas variedades de pimentas que os nativos utilizavam no preparo dos alimentos e unguentos medicinais. Os índios brasileiros ainda foram uns dos primeiros a utilizarem o alto poder de picância das pimentas como armamento de guerra: na ponta das flechas um poderoso elemento natural encontrado na natureza que conseguia por para correr os mais ousados inimigos. Mal podiam imaginar eles que no mundo moderno a pimenta seria utilizada em forma de gás, principalmente pela polícia americana.
Com os mais diferentes formatos e cores, graduações de picância (ou ardência) - determinado por uma escala que vai de 0 a 20 -, e sabores peculiares, conhecer um pouco sobre a história da pimenta é mergulhar no vasto mundo das especiarias, que incentivaram tantas aventuras pelo mar, como a da saga dos portugueses em busca das Índias, famosa desde então pela produção de pimenta-do-reino e tantas outras pimentas.
A maioria das pimentas comestíveis, da família Capsicum, tem como princípio ativo um potente anti-inflamatório, indicado para várias enfermidades. Rica em vitaminas, a pimenta também favorece a redução de coágulos no sangue, pois é vasodilatadora; estimula a produção de endorfina no cérebro, hormônio que produz a sensação de bem-estar; apresenta também ação antioxidante e anticancerígena. Consumida com moderação, pode ser indicada até para pessoas que sofrem de hemorroidas, quebrando um mito antigo.
Preparada como molho, conservas, doces e geleias, a utilização da pimenta na culinária mexe com a imaginação dos cozinheiros de plantão. Seja para abrir o apetite, seja para dar um toque a mais nas carnes ou molhos, é difícil não perceber a sua presença, por mais sutil que seja.




Adoçando a vida com pimenta

Há 11 anos, quando ganhou uma abóbora de sete quilos e decidiu fazer doce para vários amigos, Anete Barison Dal Sasso não tinha ideia de que isso viraria um negócio bem-sucedido dirigido por ela e seu marido, falecido em 2007. Do pontapé inicial, em Rolândia, eles conquistaram fregueses por todo Paraná e os produtos Duga - que faz referência ao apelido carinhoso do casal - foram parar até na França.
Utilizando receitas dos avós italianos, a inspiração para produzir artesanalmente a geleia de pimenta veio de uma amiga que experimentou a iguaria em um hotel do Rio de Janeiro. ''Ela me contou que no rótulo estava escrito que havia também adição de maçã, que é a fruta que possui a pictina natural necessária para dar o ponto certo da geleia. Fui fazendo testes até chegar ao resultado ideal que as pessoas adoram'', conta Anete, que aos 70 anos esbanja vitalidade.
Dentre vários produtos confeccionados por ela, atualmente são comercializadas quatro versões de geleias com pimenta, todas feitas com a pimenta dedo-de-moça: pimenta, abacaxi baiano (a mais vendida em Londrina), morango com pimenta e kiwi com pimenta. ''As minhas geleias não deixam ardência na boca e devido à qualidade chego a recomendar o seu uso como acompanhamento de carnes, para um efeito agridoce, uma farofa gelada, salada fria, crepes ou mesmo uma torta'', recomenda.



Um hobby que virou negócio

Após se aposentar da Previdência Social, Amauri Seifert descobriu nas pimentas um fonte extra de renda e conhecimento. ''Gosto muito do contato direto que tenho com as pessoas nas feiras que participo, quando eu também consigo transmitir os benefícios da pimenta'', comenta o pipericultor, de 58 anos, e que desde 2008 produz artesanalmente diversos produtos à base de pimenta - conhecidos pela marca Pimenta da Horta.

Tudo começou quando a sua esposa, Mirian Carrara, plantou algumas mudas de pimenta na horta da chácara da família, em Bratislava. Diante de uma boa produção, decidiram fazer algumas conservas para arrecadar fundos para um abrigo de idosos que estava sendo construído em Cambé. A boa ação deu tão certo que virou até negócio, que até hoje tem parte do rendimento destinado para trabalhos sociais.

Estudioso dedicado sobre os tipos de pimenta e seus benefícios, ele e a esposa aproveitam as viagens que fazem pelo Brasil e no exterior para conhecer mais sobre esse universo fascinante. ''Na Turquia ficamos admirados com as tiras de pimentas coloridas que ficam amarradas nas casas e prédios para secarem naturalmente'', recorda.

Atualmente, são comercializadas cerca de 34 variedades de produtos feitos com pimentas, entre molhos, conservas (algumas em formato decorativo) e até o doce de pimenta, feito com pedaços de pimenta dedo-de-moça e calda que leva cravo, canela e açúcar, indicado para saborear com sorvete. A gradação de ardência dos produtos vai de suave, ardido até extra-forte (em cada rótulo vem a indicação de picância, dentro da escala de 0 a 10).

''A literatura indica que para o consumo humano o mais indicado é até o grau de ardência 10; acima disso, só para armamentos e usos medicinais. A pimenta mais ardida encontrada até agora é a indiana naga jolokia, que chegaria ao grau 20'', informa. ''O interessante é que o organismo vai se acostumando com a ardência. Quem começa com a pimenta biquinho, que é muito suave, daqui a pouco está querendo uma cumari-do-Pará, que tem grau 8 de ardência, ou a habanero'', brinca.



Caipirinhas com pimenta

No Santa Brasa Authentic Steaks, desde abril os clientes estão podendo saborear três drinks feitos com pimenta - as Caipichili's. A novidade tem agradado principalmente o público feminino, que não resiste a uma dose do Santa Brasa Sunsation, uma saborosa mistura de morango, licor de cacau, geleia de pimenta, filetes de pimenta dedo-de-moça e gelo.

No primeiro gole, uma certa ardência evidencia a presença da pimenta, que vai passando gradativamente, deixando apenas uma deliciosa sensação de quero mais. Segundo o barman Lucas Gabriel Rodrigues de Freitas, um segredinho é observar o momento que a coqueteleira fica gelada.

''Não pode 'shakear' muito também, para não macerar demais os morangos'', recomenda. As pimentas também devem ser cortadas com cuidado, retirando sempre as sementes e parte interna branca da pimenta - que são responsáveis pela ardência mais forte. ''Mas acho que no final das contas é o barman que tem que ter a mão boa mesmo, para não estragar o sabor'', sentencia a proprietária Renata Morelli.

Há ainda os drinks Amarillo Picante - com maracujá, geleia de pimenta e pimenta dedo-de-moça - e o Verdoso Intenso - com limão tahiti, geleia de pimenta e pimenta dedo-de-moça. Todos podem ser preparados com cachaça, saquê, vodka nacional ou vodka importada.


Serviço:
- Duga Produtos Naturais, Geleias e Conservas Caseiras - Tel. (43) 3256 6970
- Pimenta da Horta - Tel. (43) 9954-0700
- Santa Brasa Authentic Steaks - Av. Higienópolis, 964. Tel. (43) 3024-2122

Imagem ilustrativa da imagem GASTRONOMIA - Um mundo de pimentas
mockup