Gastronomia - Receita de solidariedade
Xícaras e Cia
São boas para colecionar, mas por favor, de vez em quando use-as, para que elas se mantenham vivas, já que para mim elas são quase seres, habitantes das cozinhas. Para que não se formem sectarismos e etnias, as minhas, de chá, são quase todas diferentes, de cerâmica pintada, minhas prediletas, pequenos quadros usáveis, coloridas e brincalhonas. Essas fadas da louça têm cada uma a sua individualidade e as sem pires acompanhando, as soltas, são verdadeiras anarquistas. As de café, pequenas e sempre acompanhadas, têm senso de grupo e se forem de porcelana, muito lindas e requintadas, serão elitizadas. Nessa confraria dentro da cozinha, destacam-se também as japonesas, que mesmo sem a sinuosidade da alça, são elegantes, atraentes, pequenas gueixas a serem seguradas com as duas mãos, aproveitando todo o seu calor. Devem ser servidas devagar, pois tudo que se serve nelas é muito especial, como chá de jasmim de boa procedência, e outras infusões muito zen, digestivas e salutares.
Em Alice no País das Maravilhas, as xícaras são personagens importantes. Elas são portais entre a realidade e a fantasia, mesmo essas, tão comuns, na qual tomamos nosso café com leite de cada dia. Não é difícil imaginar um diálogo entre elas, na calada da noite, entre risinhos e cochichos, casos, fofocas, competições: uma delicada e recatada xicarazinha de café, com ares de sinhazinha, muito bem assentada em seu submisso pires, diria enfatuada para uma gorda e bonachona de chá:
- Comigo, minha filha, só café!
E a outra responderia, quase fosforescente em sua cor alaranjada:
- Não conseguiria levar vida tão monótona, gosto de variar. Imagine, tem dias que tenho a glória de servir chocolate quente com conhaque!
Enquanto isso a acanhada gueixa do chá, pensativamente as julgaria: a devassa e a santa. Bah, nenhuma presta...!
Bem, todas essas moçoilas alegres e travessas, têm um mandachuva da qual dependiam visceralmente para ter vida útil: o bule. Essa tirania acabou há pouco tempo, graças ao microondas. Mesmo assim, ele não perdeu a realeza e, até como enfeite, tem lugar de honra na prateleira. Agora, quem elas não esquecem e a quem sempre recorrem nas horas de aperto é a boa e amiga chaleira, sempre pronta e acolhedora. É um matriarcado, sem dúvida!





