GASTRONOMIA - Peixes com vários sotaques
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quarta-feira, 02 de março de 2005
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Pode ser peixe de rio, pode ser peixe de mar. O alimento número um da Quaresma ganha mais tempero no Brasil, por conta da diversidade cultural revelada nas influências africanas da culinária baiana ou na herança indígena dos pratos do Mato Grosso. Do mar vem o namorado, o badejo, a tainha. Dos rios, o popular pintado e peixes de nomes estranhos como pacupeba, piabucu, curimbatá e jaú que já faziam a festa nas ocas, embalados em folhas de bananeira para assar na brasa e alimentar as tribos. Com tanta abundância de mar, rios e peixes, falta os brasileiros descobrirem no dia a dia a vantagem de substituir o bifinho de sempre por pratos que ''falam'' com sotaques regionais.
É verdade que nesta época do ano, todos os olhares se voltam para nobreza do bacalhau, que os portugueses também introduziram entre nossos costumes. Apreciado no mundo inteiro, o peixão das águas geladas - chamado ''cadfish'' pelos ingleses, ''torsk'' pelos noruegueses e ''cabillaud'' pelos franceses - é delicioso em todas as línguas. O escritor Machado de Assis adorava bacalhoadas e fazia da preferência um motivo para se reunir aos domingos, nos restaurantes do Rio de Janeiro, com os amigos. Registros no Jornal do Brasil, de 1891, dão conta que, além do bacalhau, tinham lugar à mesa as discussões sobre textos literários e os já indigestos problemas brasileiros. Tudo acompanhado de um bom vinho, é claro.
Preferência na época da Páscoa, o preço salgado do bacalhau freia a gula dos consumidores que, nem por isso, devem deixar de comer peixes. Da popular e barata sardinha à sofisticação do namorado, há receitas para todos os bolsos. Para lembrar a Quaresma com sabores verde-amarelos, apresentamos hoje pratos regionais. A primeira moqueca vem da terra de Jorge Amado, receita de ninguém menos que a cozinheira Dadá, baiana de corpo, alma e tempero. A segunda moqueca é do Mato-Grosso, estado cheio de rios, peixes e lendas. E dono talvez, junto com o Pará, da culinária mais indígena do Brasil.
Moqueca mista de peixe com camarão
(Receita baiana da cozinheira Dadá)
Ingredientes: 300 gramas de badejo ou vermelho/ 300 gramas de camarão fresco/ 3 tomates grandes picados/ 2 cebolas grandes picadas / 1 pimentão médio picado/ 1 molho de coentro/ 4 galhos de cebolinha verde/ suco de um limão/ leite (grosso) de 4 cocos/ 3 colheres de sopa de azeite de oliva/ 2 colheres de sopa de azeite de dendê/ 4 dentes de alho/ 1 colher de sopa de sal.
Preparo: Tempere o camarão e o peixe com alho, sal, quatro galhos de coentro e deixe descansar por pelo menos uma hora. ''Machuque'' o restante dos temperos e adicione o suco de limão. Coloque numa panela o peixe e o camarão com uma parte do tempero e leve ao fogo para refogar durante três minutos, sem mexer. Em seguida, coloque o leite de coco, mexendo sempre com cuidado para não quebrar o peixe. Depois coloque a segunda parte do tempero e o azeite de oliva, deixando no fogo por mais 15 minutos. Antes de retirar do fogo, coloque o azeite de dendê. Decore com tomate, cebola e folhas de coentro. Sirva com arroz e farofa.
Dica: ''Machuque'' na linguagem da cozinheira Dadá é o mesmo que ''macere''. Baianidades...
Moqueca de pintado à urucum
(Receita do Mato-Grosso)
1 quilo de filé de pintado/ 200 gramas de cebola crua/ 200 gramas de tomates sem pele e sem sementes/ 200 gramas de pimentões verdes e vermelhos/ 1 vidro de leite de coco/ 500 mls de azeite misturados com 1 colher de tintura de urucum/ cheiro verde e coentro a gosto/ 1/2 xícara de caldo de limão/ sal e pimenta a gosto/ 200 gramas de farinha branca de mandioca.
Preparo:Tempere o peixe com sal, limão e pimenta-do-reino e reserve. Numa panela, coloque uma camada de peixe, outra de ingredientes, alternando sempre. Acrescente o azeite temperado com urucum e o leite de coco, deixe cozinhar por 25 minutos. Retire um pouco do caldo e coloque em outra panela no fogo baixo. Acrescente a farinha de mandioca para fazer o pirão. Adicione o cheiro verde e o coentro. Sirva com arroz branco.
Dica: O urucum é comumente usado na culinária regional, às vezes sua tintura é adicionada ao azeite e serve para dar cor aos pratos.


