GASTRONOMIA - O vinho, segundo os poetas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de agosto de 2002
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Os conhecedores do vinho sabem tudo sobre as safras, os segredos dos brancos e dos tintos, deleitam-se com os buquês, ensinam até mesmo a segurar as taças para manter a bebida na temperatura certa. Mas vem dos poetas o conhecimento que atravessa a língua e vai direto ao coração. Porque a embriaguez do vinho está entre as delícias do mundo. E no velho mundo, desde a mitologia grega até os nossos dias, quem não deitou palavras sobre as taças transbordantes e seus desvarios?
Num salmo bíblico, Asafe louva a Deus citando a bebida tão cara à memória da humanidade: ''...na mão do Senhor há um cálice, cujo vinho ferve...'' Mas vem dos poetas árabes os versos mais bonitos que transformam o néctar das uvas no melhor coadjuvante da vida. Omar Khayyam, nascido em 1040, ensina em Rubaiyat:
Bebe vinho!
Só ele te dará a mocidade,
ele é a vida eterna!
Divina estação das rosas,
do vinho e dos bons amigos!
Sê feliz um instante,
o instante fugitivo
que é tua vida...
Ainda do poeta persa vem versos mais provocantes para aqueles que ainda não se renderam à bebida:
Ouço dizer
que os amantes do vinho
serão danados no Inferno.
Não há verdades,
mas há mentiras evidentes.
Se os que amam o vinho
e o amor vão para o Inferno,
o Paraíso deve estar vazio.
Outro poeta árabe, Khalil Gibran, não fica atrás ao enaltecer as delícias do comer e do beber: ''E no inverno quando beberdes vinho, que haja no vosso coração uma canção para cada taça.''
Também Gibran, quando fala do amor proibido, trata assim do que sente por uma mulher que apenas vê e com a qual não pode manter contato: ''A taça não tenta nossos lábios/ a menos que vejamos a cor do vinho/ através da transparência do cristal.''
Atravessando o tempo até os séculos 20 ou 21, o vinho ainda embala poetas como o londrinense Rodrigo Garcia Lopes:
horas tão líquidas
perfume em frascos fechados
segundos como o vinho
instantes feito ventania
gota que se evapora
sob as estrelas
ninguém está sozinho
Mas para mim vem do irlandês W.B.Yeats (1865-1939), os versos mais inebriantes:''O vinho entra pela boca/ o amor entra pelos olhos.''
Precisa mais?


