O cliente chega ao restaurante e pede ao garçom bruschetta de tomate concassé e fettutine ao molho béchamel. Pensando tratar-se de pratos tão sofisticados quanto sugerem os nomes franceses, fica desapontado ao receber em sua mesa pão tostado coberto com tomate sem pele e macarrão ao molho branco. Cenas como essa ocorrem com frequência devido às inúmeras expressões estrangeiras usadas para dar glamour até mesmo a pratos preparados com ingredientes básicos e à desinformação da clientela pouco habituada a frequentar restaurantes mais requintados.
À brunoise, à velouté, à Julienne, à emincè. Os menus de grande parte dos restaurantes estão repletos de nomes nada fáceis de serem decifrados por quem não está ambientado ao universo da alta gastronomia. "A maioria dos nomes do pratos vêm da França porque os franceses foram os primeiro a aliar a teoria à pratica registrando as receitas culinárias e dando nomes a cada um deles", explica Pedro Iutaka, professor do curso de Gastronomia da Unopar.
O docente enfatiza ainda que as expressões estrangeiras fazem referência à região onde o prato foi criado e também ao seu modo de preparo. "O tomate concassé, por exemplo, significa tomate picadinho sem pele e sem semente. Para a gente que trabalha na cozinha é uma forma rápida de explicar como o alimento deve ser preparado", afirma Iutaka.
Apesar da praticidade de resumir várias informações em uma única palavra, o professor de gastronomia admite que as expressões estrangeiras podem causar alguns enganos. "Uma vez eu estava em um restaurante conceituado de São Paulo e um cliente pediu carpaccio. Quando o garçom trouxe o pedido ele reclamou que não queria comer carne crua e pediu para chamar o gerente. Ele não sabia que carpaccio é feito com carne crua cortada em fatias finas. Enganos como esse acontecem com frequência e na maioria das vezes os pratos voltam para a cozinha e o chef que preparou a receita fica sem saber o que aconteceu", conta Iutaka.
Segundo o docente, esse tipo de situação pode ser facilmente evitada quando o cliente lê com atenção o cardápio e expõe suas dúvidas ao garçom ou ao chef de cozinha. "Geralmente o menu informa os principais ingredientes do prato e seu modo de preparo. Se mesmo com essas informações a pessoa ainda ficar em dúvida, não deve ter vergonha de esclarecê-las. Às vezes até quem trabalha com isso diariamente fica em dúvida pois são muitos nomes de novos pratos que surgem frequentemente", ressalta Iutaka.
Já o professor do curso de Gastronomia da Unifil, Joelson Feliciano, chama a atenção para as confusões que expressões parecidas podem causar. "Ao ver no menu a palavra braseado, a pessoa pode pensar que se trata de algum prato assado na brasa. Porém braseado é um tipo de cozido", exemplifica.
Feliciano destaca ainda que além de fazer referências aos países e regiões onde foram criadas, as expressões estrangeiras são usadas para dar mais glamour ao prato. "O que soa melhor, fettutine ao molo béchamel ou macarrão com molho branco?", questiona. "Esse requinte atende a um nicho de mercado mais exigente e com maior poder aquisitivo", argumenta.
O docente salienta que essa glamourização tem reflexos até nos supermercados. "Cream cheese e creme de queijo são a mesma coisa, mas muita gente acaba pagando o dobro do valor por um pote do produto que leva o nome inglês por achar que ele é mais chique", enfatiza Feliciano.
Iutaka lembra ainda muitas expressões estrangeiras que soam requintadas para os brasileiros são bastante comuns em seus países de origem. "A maioria dos pratos franceses foram criados por camponeses, pessoas muito simples que vivem da agricultura de lá. O Coq Au Vin, é um exemplo clássico pois parece algo muito chique e nada mais é do que um galo ao vinho, um prato típico de uma área rural da França", conclui.

Imagem ilustrativa da imagem GASTRONOMIA - Menu ao pé da letra



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