GASTRONOMIA - Doce vilão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de setembro de 2002
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
O açúcar talvez seja a invenção humana que mais provocou mudanças nos hábitos alimentares e alterações no paladar. Experimente ficar uma semana sem comer doces. Todos os outros sabores serão despertados, como se língua passasse a reconhecer um novo naipe de gostos sutis. Responsável pela riqueza de alguns impérios, o açúcar não era conhecido na Antiguidade e os livros religiosos não o citam. Foram necessárias muitas viagens e intercâmbio de conhecimento para que a cana-de-açúcar começasse a ganhar status. É quase certo que tenha vindo da Índia a cultura de transformar a planta em uma espécie de guloseima capaz de alterar os sentidos de quem se entrega à sua doce viagem.
Nos anos 60, o best-seller ''Sugar Blues'', do norte-americano William Dufty, tratou o açúcar como o mal do século. Os alternativos conhecem de sobra suas citações, mas nunca é demais lembrar as descrições convincentes do estado de espírito dos ''doentes por açúcar''. No mundo moderno, o número de diabéticos cresce assustadoramente. A doença, também desconhecida no mundo antigo, hoje atinge pessoas de todas as idades, incluindo as crianças. Mas uma série de outros sintomas, ligados ao consumo de açúcar, associa o produto a uma espécie de vício. Dufty fala do jogo da euforia e da tristeza que atinge os ''malucos por doces''. Um jogo fácil de compreender quando vamos a um aniversário de criança e vemos aquele bando correndo em revoada depois de ingerir bolo e muitos, muitos brigadeiros. Embriagados de glicose nossos filhos transformam-se em personagens impossíveis. Pouco tempo depois a irritação toma o lugar da euforia e, na maioria das vezes, as mães associam apenas ao cansaço as birras dos pequenos saturados por doces. O fato é que o cérebro registra de forma muito rápida as alterações dos níveis de glicose no sangue e a gangorra da euforia e da tristeza oscila de acordo com este consumo.
Mas como impedir as crianças de comer doces num mundo de chocolates, biscoitos recheados, balas de todas as cores e sabores? Se é impossível não ceder a todas as tentações, que os bombons, ao menos, sejam dados como um prêmio em vez de se transformar em alimento imprenscindível para começar ou terminar a manha. Não é preciso radicalizar quando é possível equilibrar. Daí, é bom que se diga, os doces também têm a virtude de fazer o corpo reagir ao estresse de uma ressaca brava. Tenho um amigo que depois de tomar um porre costumava ''sossegar o fígado'', no dia seguinte, com pedaços de goiabada. Nunca soube se ele acabou viciado em álcool ou açúcar.


