Devo confessar: comida fria nunca esteve entre os meus pratos preferidos, com exceção das saladas, mas me surpreendi ao experimentar as variações que as culinárias japonesa e peruana oferecem - muito bem-vindas nesses dias de extremo calor.
Leves e saborosos, os pratos gelados - que vão além da ideia mais habitual da salada - podem ser consumidos como prato principal ou acompanhados por algo mais calórico, de mais ''sustância'', como diriam os mais velhos.
No caso dos pratos gelados japoneses, o macarrão está presente em três variedades deliciosas. Ainda não muito popular no Brasil, o ''Hiyashi Chuka'' traz uma uma combinação de macarrão gelado do tipo lamen com legumes, presuntos e ovos cozidos caprichosamente cortados em tirinhas e colocados sobre a massa. Por cima, um molho à base de shoyu, vinagre, açúcar e óleo de gergelim conferem um toque especial de sabor agridoce ao prato.
Amauri Shimizu, proprietário do Restaurante Kyodai, um dos mais tradicionais da cidade, explica que por não ser muito conhecido o ''Hiyashi Chuka'' é preparado sob encomenda, sendo que ocasionalmente também pode entrar como parte dos acompanhamentos (em pequenas porções) do teishoku - que reúne 13 pratos tradicionais da culinária japonesa, tendo como pratos fixos o sashimi, o tempurá e o peixe grelhado.
Outro prato que chama a atenção pelo visual é o ''Somen'', em que uma porção de macarrão bem fininho é servida sobre pedras de gelo. Tigelinhas individuais de porcelana com molho à base de shoyu e temperos à parte - cebolinha picada, gengibre ralado e raspas de peixe seco - possibilitam que cada um elabore a sua maneira preferida de degustar a iguaria. ''O que não pode acontecer é colocarem o molho direto na tigela, pois com o derretimento do gelo, haverá muito líquido e o tempero não irá pegar no macarrão. E olha que já vi até descendentes de japoneses fazerem isso'', orienta Shimizu.
Outra boa surpresa degustativa foi experimentar o ''Sobá'', feito com macarrão escuro, de trigo sarraceno (originário do Oriente Médio), cuja aparência e sabor lembram as massas integrais. Servido sobre uma espécie de uma pequena esteira de madeira, o ''Sobá'' também é gelado e servido acompanhado de tigelinhas individuais com molho à base de shoyu, mas com temperos diferentes: cebolinha, wasabi (pasta de raiz forte) e algas marinhas reidratadas.
Para os ainda não iniciados na culinária japonesa, vale a pena experimentar esses deliciosos pratos frios. E não se assuste com o hashi: uma pecinha plástica (denominada 'automático') facilita o manuseio das varetas utilizadas como talheres.

Receita do avô peruano
A jovem chef Yoná Vega Issa, do Restaurante Dona Menina, ainda lembra em detalhes do prato feito à base de peixe cru e servido gelado que aprendeu a apreciar com o avô peruano, que veio jovem ao Brasil para cursar medicina. Ainda em plena atividade profissional, César Horácio Vega, 73 anos, contou por telefone à neta que na sua infância os peixes utilizados para fazer o ''Ceviche'' não eram tão nobres como agora, quando o popular prato peruano está ganhando status de sofisticação aqui no Brasil. Em São Paulo, as ''cevicherias'' estão virando a febre do momento.
Como entrada - podendo ser servido charmosamente em copinhos de cachaça - ou mesmo como prato principal - acompanhado de abacate, batata-doce ou milho cozido - o ''Ceviche'' surpreendeu no bom sentido, mesmo para mim, que não sou fã de comidas à base de peixe cru. ''Como prato típico, ele normalmente é servido com esses acompanhamentos como forma de equilibrar a acidez do peixe cru marinado no limão'', explica Yoná.
Bem curtida no limão, a carne de peixe fica tenra, suavemente temperada com sal, dedo-de-moça, salsinha, coentro e rodelas bem finas de cebola roxa. Variações mais modernas sugerem também a utilização de suco de laranja, ervas secas, salmão, lula e camarão no preparo do prato.
''No Peru, o Ceviche é muito popular, com barraquinhas por todo lado, como se fosse o nosso cachorro-quente, sendo servido em potinhos descartáveis com colher. No Brasil, ele está adquirindo um ar mais requintado'', observa a chef Yoná.
Prestes a completar um ano de funcionamento em junho, o Restaurante Dona Menina oferece um ambiente extremamente aconchegante, propiciando até um quintal ''de verdade'' para as crianças, com direito a bananeira e casinha de boneca. Focado no resgate da simplicidade da culinária sem abrir mão da qualidade, a casa trabalha com produtos orgânicos, caipiras e convencionais em buffet para almoço.

Serviço:
Restaurante Dona Menina - R. Guararapes, 177. Tel. (43) 3029-0409
Restaurante Kyodai - R. Gustavo Barroso, 168. Tel. (43) 3328-7304

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