GASTRONOMIA - Biscoitos guardados na memória
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Minha avó Ida era uma especialista em biscoitos, fazia como ninguém os de polvilho, nata e as rosquinhas de pinga que derretiam na boca. Ela e meu avô foram donos de padaria, mas era na sua cozinha que eu gostava de ficar sentindo o perfume daquelas receitas quando iam para o forno. Primeiro gostava de vê-la preparando a massa: porções de farinha, nacos de manteiga, açúcar e, em pouco tempo, ela encontrava o ponto exato de tudo. Depois manuseava a mistura como uma artesã. Conseguia enrolar biscoitos com rapidez e deixava tudo bonito, proporcional. Parecia inspirada por algum gênio da cozinha que soprava no seu ouvido o tamanho exato de cada unidade. Quando terminava, era aquela maravilha, bolachinhas simetricamente arranjadas em grandes assadeiras que iam para o forno até ficarem douradas e desprender aquele cheiro maravilhoso que fazia todos os netos se concentrarem à espera do grande momento. Aí vinha o café com leite quentinho e os biscoitos que depois eram guardados em vidros ou latas para onde espichávamos o olho comprido quando voltávamos à sua casa.
Por conta das nossas profissões e falta de tempo, hoje somos de mulheres que quase não se dedicam a coisas delicadas na cozinha. No máximo, preparamos uma refeição caprichada aos domingos, um assado, massa, risoto. Mas nem pensar em fazer bolachinhas artísticas, rosquinhas simétricas, docinhos tão delicados que mais parecem bibelôs nos quais temos pena de cravar os dentes. Acho que antigamente, as mulheres faziam da cozinha sua missão e sua terapia. Minha mãe cantava enquanto fazia bolos e dava a impressão de que os problemas desapareciam enquanto batia claras em neve. Percebo que para as crianças a cozinha é um espaço lúdico. Meus filhos não perdem a oportunidade de ficar na barra da minha saia quando acordo inspirada e resolvo fazer algum quitute. Querem participar, aprender e tanto faz que sejam meninas ou meninos, a ''alquimia'' de misturar ingredientes é sempre uma mágica que desperta interesse. Nesses momentos volto no tempo e na cozinha da minha avó e me dedico, ainda que por instantes, a explicar pacientemente como se quebram ovos sem misturar clara e gema. Essa lição não tem preço, fica na nossa memória como uma lembrança consagrada aos bons tempos. Nunca terei talento e paciência para fazer rosquinhas. Então, deixo aqui pelo menos as receitas da minha avó.
Rosquinha de Pinga
Ingredientes 1 copo de pinga/ 1 copo de óleo/ 1/2 copo de açúcar refinado/ 1 quilo de farinha de trigo (aproximadamente)/ erva doce/ açúcar refinado para polvilhar.
Modo de Preparo
Faça um chá forte com a erva doce, não adoce e deixe esfriando. Misture a pinga, o óleo, o açúcar e misture. Acrescente a farinha aos poucos e amasse, sem sovar, até que não grude na mão. Faça rosquinhas pequenas trançando fios de massa e leve ao forno pré-aquecido até que dourem embaixo. Atente para um detalhe: elas não ficam moreninhas
Tire do forno, deixe esfriar um pouco. Passe pelo chá de erva doce e numa vasilha com açúcar. Disponha sobre uma mesa coberta com um pano para secarem.
Sequilhos
Ingredientes 1 quilo de araruta/ 1/2 quilo de açúcar/ 4 colheres de (sopa) de banha/ 4 colheres de (sopa) de manteiga / 10 colheres de (sopa) de leite/ 3 ovos (inteiros)/ 1 pitada de sal
Modo de Preparo
Misture tudo muito bem, sove a massa até ficar firme, faça bolinhas e achate-as com um garfo. Depois coloque numa forma untada com óleo e leve ao forno quente. Esses sequilhos são muito gostosos.


