Gary Craver conta a aventura de trabalhar com Orson Welles
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 27 (AE) - Ele era um workaholic que, se pudesse, filmaria 24 horas por dia, sete dias por semana, todas as semanas do ano. Mas Orson Welles também era um homem que sabia aproveitar a vida: glutão, nunca dispensava um bom restaurante. Adorava a companhia feminina e apreciava um vinho francês. "Um de seus tormentos foi quando ele constatou que estava gordo demais e quis parar de beber; quando estava na França, simplesmente não conseguia", conta Gary Graver.
Se alguém pode falar sobre os últimos 15 anos da vida do genial criador de Cidadão Kane é Graver. Ele não foi apenas o fiel escudeiro de Welles nessa época. Foi o homem-orquestra de sua equipe: cameraman, diretor de fotografia, montador, iluminador, diretor artístico. "Uma vez que ele constatou minhas múltiplas habilidades, tornei-me imprescindível para ele." Provada a confiança, Welles adotou Graver para o resto da vida. Trabalhar com Welles era uma aventura constante. "Ele tinha uma família oficial, mulher e filha, nos Estados Unidos; na Europa, onde gostava de viver, éramos Oja Kodar e eu." Graver está em São Paulo participando da 10ª Mostra Internacional de Curtas.
Fica até domingo, acompanhando a exibição do programa dedicado a Welles: o trailer original de "Cidadão Kane", quase um making of, com 4 minutos de duração, o primeiro curta que ele dirigiu ("Os Corações da Idade", de 1934), seu primeiro telefilme ("Fonte da Juventude", de 1958) e mais um episódio da série "I Love Lucy", em que Welles e Lucille Ball contracenam numa versão cômica de Romeu e Julieta, trechos de longas com truques mágicos feitos pelo cineasta e comerciais que protagonizou para uma marca de uísque japonês.
Graver e a mulher, Jillian, possuem a maior coleção particular do mundo dedicada a Welles. O Orson Welles Archives reúne filmes e objetos que pertenceram ao diretor. Graver tinha até o Oscar que Welles recebeu pelo roteiro de "Cidadão Kane" (de autoria dele e de Herman J. Mankiewicz), mas a peça está interditada pela Justiça, como objeto de uma disputa judicial movida pela filha do grande diretor, Beatrice.
"Não gosto dela, mas ela também não gosta de mim", diz Graver, que lamenta que a filha de Welles tenha invocado a lei do direito de autor, vigente na França, para embargar a exibição da versão restaurada de "A Marca da Maldade" no Festival de Cannes deste ano. Ele conta como conheceu o diretor. Era jovem, em 1970. "Liguei para ele, disse que queria ser seu cameraman e deixei um número de telefone; o telefone tocou em minha casa, era Orson, desde então estivemos sempre juntos."
Uma relação de devoção, de mestre e discípulo. Graver foi o homem-equipe de Welles em "Verdades e Mentiras" (menos no episódio dedicado a Picasso) e esteve sempre por perto quando ele queria filmar cenas para o mítico e inacabado "The Other Side of the Wind", que tem John Huston no papel de um diretor de cinema inspirado em Orson Welles. "Ele deixou montados 40 minutos desse filme." Graver conta nos dedos: de setembro até maio do ano que vem são nove meses. Ele tem esse tempo para tentar concluir a montagem de "The Other Side of the Wind", usando as dezenas de horas filmadas que Welles deixou. Quer ver se apronta o filme para o próximo Festival de Cannes - o festival do ano 2000, que se antecipa como um grande evento.
Memória - Verifica-se até certo ponto com Graver um fenômeno parecido com o de Saulo Pereira de Mello no Brasil. Saulo dedicou sua vida a manter viva a memória e a obra do amigo Mário Peixoto, autor do mitológico "Limite". Graver faz o mesmo em relação a Welles. Ele dirigiu um filme documental que pode ser encontrado nos Estados Unidos em duas versões: vídeo e DVD. "Working with Orson Welles" aborda o retorno do ator e diretor a Hollywood, quando ele foi negociar detalhes da produção de "The Other Side of the Wind". Conta com depoimentos de Peter Bogdanovich, Stacy Keach e Oja Kodar, companheira de Welles no fim da vida (e atriz em "Verdades e Mentiras").
Há admiração nos olhos de Graver quando fala de Welles: "Sua mente estava sempre criando." Observa que cada filme do diretor é diferente dos outros: "Kane é diferente de "A Marca da Maldade", como "A Dama de Shangai" difere de "Othello"." Ele lembra que Welles sofria de insonia e tinha sempre uma moviola em seu quarto para distrair-se montando algum dos 1.001 projetos em que costumava estar envolvido. Acrescenta que o diretor tinha mágoa de sua experiência em Hollywood, mas não gostava de remoer o passado. "Vivia de olho no futuro."
Sempre à frente do seu tempo, Welles preparava-se para a aventura do cinema digital, rodando uma versão de "Rei Lear", quando morreu em 1985, aos 70 anos. "Dizia que estava na idade perfeita para o papel." O próprio Graver segue a trilha do mestre: trabalha com o ex-The Doors, Ray Manzarek, num filme digital que se passa numa universidade. Como Welles, acredita que o diretor tem de estar na vanguarda, mesmo quando não compreendido.


