Garras de leoa acuada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de março de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Leonera, em sentido semântico mais óbvio, é jaula onde são aprisionados os leões. ''Mas na Argentina também quer dizer lugar de passagem, e o termo é utilizado especificamente para áreas de prisão por onde os reclusos passam quando são transferidos'', explica o diretor do filme, Pablo Trapero.
Há bons filmes que vão ganhando o afeto do espectador pouco a pouco. Há ótimos filmes que agarram o espectador logo na primeira cena, e depois não o soltam mais, nem quando a projeção termina. ''Leonera'', em estreia hoje no circuito local, pertence a este segundo grupo.
A universitária e bibliotecária Julia (impressionante trabalho de Martina Gusmán, também produtora do filme e mulher de Trapero) acorda em seu apartamento, mas não é uma manhã como as outras - na verdade, a noite anterior não foi como as outras. Tudo está revirado, ela está ensanguentada. Há uma faca no chão e dois corpos: um está morto, e o outro, ferido (Rodrigo Santoro, o argumento vai mostrá-lo mais adiante). Todas as provas a incriminam, ela não sabe explicar o que ocorreu e é presa.
Já na cela, Julia descobre uma gravidez que não sabe ao certo gerada com quem. Desesperada, tenta se desfazer do filho, mas é impedida por outras mães que ocupam o mesmo pavilhão especialmente destinado às presas que criam suas crianças por trás das grades. Será ali que Julia não somente dará à luz, mas também tratará de criar seu menino da melhor maneira possível, inclusive diante de pressões e conflitos com sua mãe Sofia (a uruguaia Eli Medeiros, outro trunfo da direção), que volta de Paris unicamente para tentar a guarda do neto.
Há prisioneiras e guardas, lutas pelo poder nos limites da prisão, um motim e uma e outra cena de lesbianismo - lugares comuns reduzidos a clichês quando se trata de qualquer filme do gênero a rigor. Tudo isto, porém, aparece aqui atenuado, desdramatizado. Ao cineasta não parece interessar de forma alguma estes postulados do ''filme de prisão'' e seus cânones, o escabroso e o sensacionalismo.
O que de fato interessa é o que ocorre a esta mulher apanhada nesta situação, a maneira como deve lidar com as circunstancias inéditas com as quais tem que conviver. A repentina mudança de realidade fará com que Julia tenha que se reinventar. Sim, se reinventar para passar pela iniciação como uma presa inicialmente hostilizada. Para assimilar sua condição de grávida. Para aceitar a proteção de Marta (Laura Garcia, um achado como atriz), interna veterana com quem terá uma ligação sexual e afetiva. À medida que seu áspero rito de passagem a faz crescer em bravura, como ser humano resistente às adversidades, Julia vai impondo limites. Agora é uma leoa que amadureceu, sabe o que não quer e vai lutar pelo que quer.
Leonera, que tem co-produção de Walter Salles, é obra de inegável poder narrativo. Com sensibilidade, credibilidade (cárceres, guardas e prisioneiras reais) e intensidade emocional, o casal Pablo Trapero/Martina Gusmán expõe as duvidas, as inseguranças, os dilemas morais, os matizes, o amor e a capacidade de luta e resistência de uma jovem que se transforma em mulher, muito também pelo viés da maternidade. Melhor e mais forte discurso em imagens para este 8 de março temático, impossível. E se também quiserem antecipar em dois meses, o filme cai como um desejável tônico revigorante na data sempre consumista e pasteurizada do Dia das Mães.


