Simone Mattos
De Curitiba
‘‘Cidades são a divina criação humana. São a selva, o inferno e o paraíso que o homem criou para si mesmo. Cidades são uma casa para a nossa casa. Nelas, as ruas são corredores, os parques podem ser jardins, os bairros são quartos, o centro é a sala.’’ A poética definição faz parte do novo livro lançado pelo jornalista e escritor Eduardo Fenianos, ‘‘Almanaque Kur’yt’yba’’, pela Editora UniverCidade.
Aos 28 anos, ele se considera um desbravador de Curitiba. Já lançou 12 volumes da série ‘‘Bairros de Curitiba’’, o que totaliza 90 mil exemplares comercializados, e tem outros 13 volumes prontos, que deverão ser publicados ao mesmo tempo, no próximo aniversário da cidade. Em 1998, Fenianos passou 100 dias viajando dentro de Curitiba, o que lhe rendeu o livro ‘‘O Urbenauta, Manual de Sobrevivência na Selva Urbana’’, que já esgotou a primeira tiragem de três mil exemplares.
Ele defende a idéia de que o mundo precisa de novos desbravadores, assim como Pedro Álvares Cabral ganhou os mares ou Neil Armstrong conquistou o espaço. ‘‘Teremos que ser desbravadores de nós mesmos, já que as cidades não foram criadas por Deus ou pela natureza, mas pelos próprios homens’’, afirma. Esses novos exploradores, segundo ele, seriam os urbenautas.
Seu novo livro resume Curitiba em pouco mais de 160 belas, coloridas e ilustradas páginas. Para começar, o título é proposital. Segundo o professor Aryon Dall’Igna Rodrigues, estudioso de línguas indígenas que fez a mais completa pesquisa sobre o termo Curitiba, o nome da cidade é proveniente do tupi-guarani. Kur significa pinhão, Yt que dizer árvore e Yba é um sufixo para grande quantidade. Outras explicações para a origem do nome estariam erradas.
‘‘Almanaque Kur’yt’yba’’ é o resultado de uma pesquisa desenvolvida por Fenianos nos últimos seis anos. Nas primeiras páginas, ele apresenta a natureza original do local. ‘‘A idéia é mostrar como a cidade era antes da colonização, quando havia onças e uma vegetação mista de mato e campo.’’
Os primeiros habitantes são descritos na sequência da obra. Índios das nações tupi-guarani, como os Tingui e os Tindiquera, e Jê, como os Kaingangs e os Xoklengs, eram os únicos na região no século 17, antes da chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis.
Uma resumida e eficiente história de Curitiba percorre os três últimos séculos, nas primeiras páginas do almanaque. ‘‘O que hoje é o centro da cidade, para os curitibanos do século 18 era uma pequena vila com pouco comércio e casas de pau-a-pique. O que hoje são os bairros, eram terras inabitadas ou fazendas afastadas...’’
O século 20 ganhou maior detalhamento no livro, apresentando os principais acontecimentos locais, do País e do mundo, dividido por décadas. Nos anos 10, Curitiba tinha em torno de 55 mil habitantes, as ruas e residências – até então iluminadas por lampiões a gás – ganharam energia elétrica na região central.
Nos anos 20, os curitibanos estavam maravilhados com o gramophone. Na década de 30, quando a população era de 93 mil habitantes, os cavalos concentravam-se no Largo da Ordem, em torno de um bebedouro recém-inaugurado. Os animais puxavam carroções dos imigrantes italianos, alemães e poloneses, que vinham ao centro para vender os produtos cultivados em suas distantes chácaras.
Na década seguinte, surgem as grandes radiais, como as avenidas Sete de Setembro e Marechal Floriano, facilitando a vida de 150 mil curitibanos. Nos anos 50, o governador Bento Munhoz da Rocha inaugurou o Centro Cívico.
Com 430 mil habitantes, nos anos 60, Curitiba assistiu a inauguração do chafariz da Praça Osório. O primeiro calçadão do País, o da Rua das Flores, foi inaugurado na década de 70. Nos anos 80, encostando na marca de um milhão de habitantes, Curitiba ganhou o seu primeiro shopping center.
Para os anos 90, Fenianos reservou as últimas 70 páginas do livro. Além dos textos informativos, a publicação apresenta uma coletânea de fotos, feitas no final de 1999 e divididas em quatro seções que revelam a cidade, as ruas, as casas e o povo em flagrantes originais.
Não é por acaso que as fotos não trazem legendas. ‘‘Eu queria incentivar as conversas e discussões entre as pessoas que vissem o livro’’, justifica o autor. Ele acha os curitibanos desinformados sobre a cidade. ‘‘Isso é uma característica de quem mora nas grandes metrópoles’’, afirma. ‘‘Só andamos pela nossa cidade quando chega um parente de fora e precisamos levá-lo ao Jardim Botânico’’, brinca.
Mas os livros de Fenianos não mostram apenas os pontos turísticos, muito pelo contrário. ‘‘Acho que pouca gente conhece o bairro Caximba, por exemplo, 34 quilômetros ao sul do centro de Curitiba. Quando fez a sua viagem de 100 dias pela cidade, Fenianos passou vários dias lá. ‘‘Se fosse para ir e voltar todos os dias, a quilometragem alcançaria rapidamente a mesma distância de São Paulo, por isso, optei por me hospedar nos bairros enquanto fazia as entrevistas e pesquisas’’, explica. Na maioria das vezes, ele dormia nas casas dos próprios moradores do local.
Esse interesse em desbravar a cidade começou há quatro anos, numa tarde em que Fenianos andava de bicicleta pelo bairro do Prado Velho. ‘‘Eu conversei com um senhor que me contou que conhecia o mundo todo, mas nunca tinha entrado no Teatro do Paiol, vizinho à sua casa’’, lembra. Foi isso que o motivou a começar suas pesquisas. ‘‘Com elas percebi que não precisamos fazer o Caminho de Santiago para nos descobrirmos, basta viajarmos pela nossa própria cidade’’, afirma.
Fenianos acredita que as grandes revoluções começam nas esquinas. Ele critica o aumento das comunidades virtuais, enquanto que os habitantes de uma mesma cidade não se conhecem. ‘‘Também acho que os alunos estão muito separados da realidade em que vivem’’, diz. Para sua alegria, os livros de sua autoria foram recentemente adotados por várias escolas e universidades de Curitiba e já estão sendo utilizados nas salas de aula.
O ‘‘Almanaque Kur’yt’yba’’, de Eduardo Fenianos, tem 160 páginas e foi lançado pela editora UniverCidade (Rua Presidente Rodrigo Otávio, 813, Alto da XV, em Curitiba). Mais informações pelo fone (41) 362-3307 ou pelo e-mail [email protected] Fenianos lança o ‘‘Almanaque Kur’yt’yba’’ em que desvenda a cidade percorrendo ruas e bairros como um explorador
Kraw PennasEduardo Fenianos e o almanaque: desbravador da cidade, o autor ‘‘viaja’’ por ruas e bairros em busca de informaçõesReproduçãoFoto de casa num bairro curitibano que no livro faz parte da seção ‘‘O povo’’ReproduçãoFoto de moradia curitibana que no almanaque integra a seção ‘‘As casas’’ReproduçãoPraça Osório, no centro de Curitiba, em 1909ReproduçãoPassagem do dirigível Hindenburg por Curitiba, em 1936

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