João Marcello Bôscoli é a discrição em pessoa. O estilo pode ser conferido no ‘‘Música Brasileira’’. Com seu jeito pausado e descontraído de falar, o filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli interfere o mínimo possível no comando do programa exibido às quintas, às 22h30, no canal por assinatura Multishow, da Globosat. ‘‘É o músico que tem de aparecer, não o apresentador’’, explica o carioca de 31 anos. A idéia de João Marcello é não maquiar a performance dos convidados. Pelo contrário. Por isso, o programa não deixa de mostrar cantores errando as letras, cordas dos instrumentos arrebentando durante a apresentação e eventuais improvisos entre músicos de diferentes estilos. Além disso, o apresentador também pode aparecer atrás de uma bateria dando uma ‘‘canja’’ com seus convidados. ‘‘O ‘Música Brasileira’ é um solo fértil para a criação’’, vibra João.
A carreira de apresentador começou no ‘‘Cia. da Música’’, exibido pela CNT entre 1994 e 1995. Também fez mais de 50 trilhas de abertura de programas para tevê, como ‘‘Metrópolis’’ e ‘‘Cartão Verde’’, da TV Cultura, e ‘‘Esporte Total’’, da Band. Foi ainda arranjador e produtor de artistas como Milton Nascimento, Paulinho da Viola e João Bosco. Chegou a ser artista da Sony Music, onde lançou o disco ‘‘João Marcello e Cia.’’. Desde 1998, é presidente da gravadora Trama, conhecida por lançar artistas com trabalhos de qualidade. No primeiro ano a gravadora vendeu 300 mil discos e em 2001 a previsão é que venda seis vezes mais.
Entre os convidados do programa não aparecem artistas de axé e pagode. Qual o critério para escolher os convidados?
Convidamos o maior número de artistas, mas nem todos podem devido a agenda. Mas a idéia é trazer bandas que não apareçam sempre em outros programas. Com isso, existe um afunilamento natural. No entanto, o espaço é democrático. Como produtor e músico, acho meio déjà vu ser contra ritmos de qualquer espécie. Mesmo porque, nasci na ditadura e ter esta postura iria me incomodar. Além do mais, adoro Amado Batista e Roberto Carlos, tidos como bregas.
O programa também é uma maneira de criar um espaço para os artistas da sua gravadora?
Não. Dos 72 convidados, apenas 12 pertencem ao elenco da Trama. Seria ridículo fazer isso, pois investimos US$ 500 mil no programa e não seria nem um pouco ético criar uma verba para pagar somente os artistas da gravadora. Jamais faria isso. Mesmo porque as outras gravadoras liberaram sem problemas seus artistas, como o Cidade Negra, da Sony, e Zeca Baleiro, da Universal.
Por que você mantém uma postura tão discreta na apresentação do programa?
Para mostrar ao leigo como é feito um programa ao vivo. Sem assepsia. Faço um estilo de bastidores. Gosto mais do burburinho das gravações do que estar necessariamente em frente à câmara. Também falo o mínimo necessário. Brinco que meu estilo é minimalista. Fui muito influenciado por Nélson Motta. O importante é a música e não o apresentador.
As ‘‘jams sessions’’ acontecem naturalmente no programa?
Sim. Alguns sabem que irão tocar juntos, mas não o repertório. O programa é um espaço para a criação. Algo raro na tevê. Não é só para o artista mostrar a música de trabalho, mas criar também. Por isso, temos dois palcos e camarins confortáveis. O Sérgio Dias, por exemplo, fez uns improvisos no camarim com Marina Lima e o Kid Abelha e foi demais. Só com hinos religiosos. Por isso, encaro o programa como um solo fértil para o artista. Também gosto de registrar os encontros. O Brasil não tem cuidado com a memória.
Playback é proibido no programa?
No ‘‘Música Brasileira’’ só ao vivo. Mas o playback é um mal necessário. Em programas ao vivo, como o da ‘‘Hebe’’, por exemplo, fica difícil montar toda uma estrutura para se fazer uma apresentação de qualidade. A margem de risco de surgir um problema técnico de áudio é grande. Por isso, se apela ao playback. O mínimo seria o artista cantar de verdade em cima da trilha. Mas nem todos têm técnica. Na verdade, tem um monte de picareta que não sabe cantar e se salvam com o playback. Acho que é uma questão de seleção natural, tipo Darwin.

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