As erupções verbais de Waly Salomão já o transformaram numa celebridade nacional quando, há poucos anos, ele disparou sua loquacidade exuberante durante um programa de televisão. No dia seguinte, não se ouvia falar de outra coisa nas ruas, todos comentando a entrevista do poeta que ofuscou Jô Soares. A badalação pitoresca, contudo, pouco parece interessar a Waly.
Ele está lançando ‘‘O Mel do Melhor’’ (Rocco), uma antologia com os melhores poemas e textos em prosa que produziu nas três últimas décadas. A coletânea garimpa desde fragmentos de prosa experimental de seu livro de estréia ‘‘Me Segura qu’eu Vou dar um Troço’’ (1970) até criações recentes reunidas no volume ‘‘Tarifa de Embarque’’ (2000), passando ainda por versos publicados na legendária revista Navilouca (1972).
Waly é um dos grandes nomes da poesia contemporânea brasileira. Não por acaso, teve seu poema ‘‘A Missa do Morro dos Prazeres’’ (não incluído aqui) selecionado para a antologia ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’, organizada pelo crítico Ítalo Moriconi e recém-lançada pela editora Objetiva. Figura singular, ele atravessou movimentos sem vestir a camisa de nenhum. Despontou nos anos 70 como o letrista da canção ‘‘Vapor Barato’’, gravada por Gal Costa, a qual vinculou-se também dirigindo shows.
Com Torquato Neto, publicou a revista Navilouca. Pouco depois, editou ‘‘Alegria Alegria’’, o primeiro livro de Caetano Veloso. Ao lado de Ana Duarte, organizou a obra póstuma ‘‘Os Últimos Dias de Paupéria’’ reunindo os escritos de Torquato Neto. Mais tarde, em parceria com a Lygia Pape e Luciano Figueiredo, lançou o volume também póstumo ‘‘Aspiro ao Grande Labirinto’’ com os textos do artista plástico Hélio Oiticica.
Paralelamente, foi publicando seus próprios livros e compondo letras para Maria Bethânia, Adriana Calcanhotto, Jards Macalé, Cazuza e outros. ‘‘Mel do Melhor’’, diz ele, é ‘‘apenas um prelúdio do que vou fazer daqui para frente. Já estou com um livro de poesias inéditas pronto’’. A seguir, a entrevista que o poeta concedeu com exclusividade à Folha2.
O seu poema ‘‘A Missa do Morro dos Prazeres’’ entrou na antologia ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’, organizada pelo crítico Ítalo Moriconi e recém-lançada pela editora Objetiva. O poema, no entanto, ficou de fora de sua própria antologia. Que critérios você utilizou para a escolha dos textos?
Eu não inclui ‘‘A Missa do Morro dos Prazeres’’ no meu livro, mas isso não quer dizer que eu o desmereça. Gosto de muitos outros poemas que, no entanto, não foram selecionados. Caetano Veloso, por exemplo, achou ‘‘Cobra Coral’’ (do livro ‘‘Tarifa de Embarque’’) uma obra-prima a ponto de musicá-lo e colocá-lo em seu disco ‘‘Noites do Norte’’. Mas é um dos poemas que ficaram de fora de minha antologia. Não dá para ter tudo. Há três anos, eu tinha a proposta de publicar um volume enorme, um calhamaço com todas as minhas poesias reunidas, mas acabei rejeitando a idéia. Eu achava que um volume grosso seria anti-poético enquanto eu estivesse vivo. Achava que parecia uma missa de corpo presente. Eu não quis fazer. Prefiro esses livros finos, que fique com um leve gosto de ‘quero mais’ na vontade dos leitores.

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