Garcia Lorca fala de amor em "O Malefício da Mariposa"
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Dib Carneiro Neto 
São Paulo, 10 (AE) - Uma das melhores peças em cartaz neste semestre no circuito de teatro infanto-juvenil está saindo de cartaz neste fim de semana. "O Malefício da Mariposa", com a companhia Pia Fraus de Teatro, desde abril na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo, fica em cartaz só sábado e domingo.
O texto é do espanhol Federico Garcia Lorca e foi muito bem traduzido, nesta montagem, por José Rubens Siqueira, que soube tirar proveito do recurso das falas rimadas, conseguindo um ritmo agradável de linguagem em vez de torná-lo cansativo como um jogral de colégio. O espetáculo integrou o projeto Lorca na Rua, feito no ano passado pelo Sesc de São Paulo, em comemoração ao centenário do autor. O projeto manteve o espírito popular desta peça de Lorca, que foi escrita para sua companhia e era apresentada sobre um caminhão, percorrendo povoados de toda a Espanha.
A transposição para o palco tradicional, no Centro Cultural, resultou positiva. Estreando na montagem de um texto clássico, a Pia Fraus - dos premiados Beto Andretta e Beto Lima - consegue imprimir um clima de lirismo que encanta a platéia do começo ao fim. Com uma concepção cenográfica simples, usa véus vermelhos para pontuar o romantismo da trama - uma parábola sobre o amor e suas desilusões, povoada por baratas, lacraias e mariposas.
Talvez o único erro do espetáculo esteja justamente relacionado com esses personagens, todos do reino dos insetos. Dá-se importância excessiva ao fato de que são insetos falando de sentimentos nobres e humanos, como se a platéia não estivesse acostumada à linguagem simbólica e ao jogo de metáforas e associações feitas nos contos de fadas universais, que, afinal, também falam de amor e medo por meio de lobos maus, patinhos feios, peixinhos apaixonados e até objetos inanimados. É uma justificativa inútil, que quebra por instantes o clima fantasioso e subestima o público no que ele pode ter de melhor: o mergulho no sonho para compreender a realidade.
Uma solução bem-sucedida para manter o ritmo da peça são as cenas de platéia, que interrompem a narrativa no palco e funcionam como espécies de entreatos para, digamos, descansar o público por uns momentos. Outras maravilhas da montagem são as cenas de abertura e de finalização do espetáculo, ambas de uma plasticidade impressionante. O começo sugere o próprio Lorca pulando literalmente de livro em livro e o final tem o impacto da música incidental cantada por Renato Russo, sobre poema de Camões.
Neste ano, a Pia Fraus está completando 15 anos em atividade. Para marcar as comemorações, está preparando para julho a estréia do espetáculo "Navegadores", que será encenado dentro de uma piscina do Sesc Consolação. Fazem parte do repertório do grupo as peças "Flor de Obsessão, O Vaqueiro e o Bicho Froxo, Gigantes de Ar e Éonoé, Uma Cosmogonia", com as quais se tem apresentado em países como Índia, Suécia, Portugal, Colômbia, Argentina, Bolívia, Inglaterra, Escócia e Espanha. O Malefício da Mariposa. Texto de Federico Garcia Lorca. Tradução de José Rubens Siqueira. Direção e apresentação do grupo Pia Fraus. Duração: 50 minutos. Sábado e domingo, às 16 horas. R$ 6,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 13/6


