Ganhando a vida no grito
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de janeiro de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Kraw PenasUm freguezinho afoito persegue o ambulante. Para ganhar o que quer vale choro, birra ou qualquer tipo de pressão
Há pais que só faltam cavar um buraco na areia e enfiar o filho dentro quando um deles passa. Aliás, não são só crianças que se sentem seduzidas por eles. Na hora da sede, da fome ou até mesmo quando se quer jogar dinheiro fora com algum badulaque é incrível como sempre tem um por perto. São os vendedores ambulantes que, nas praias, andam para cima e para baixo promovendo um verdadeiro berreiro para atrair a atenção dos banhistas. Mas saibam de uma coisa: vida de ambulante é difícil, é difícil como o quê (lerê-lerê)...
São tantos vendedores, mas tantos vendedores por metro quadrado de areia que a palavra de ordem para enfrentar o berreiro, quer dizer, a concorrência a palavra é só uma: criatividade. E isso é o que não falta para o londrinense Ronildo Martins da Silva que, há quatro anos, é vendedor ambulante em Caiobá, no litoral paranaense. Ele é sorveteiro. Mas não um sorveteiro comum, não senhor! Para atrair a freguesia ele adapta a marca do sorvete que vende - a Yopa - para músicas pra lá de conhecidas.
Por exemplo Pelados em Santos, dos Mamonas Assassinas. Mina, meu sorvete é legal/ é sabor natural/ tem sorvete de côco/ tá me deixando louco/ Meu carrinho é branco/ tá de tampa aberta/pra você escolher/ é picolé Nestlé.
Claro, o modus operandi de Ronildo ganhou a simpatia dos veranistas. Tanto que chega a vender pelo menos 200 sorvetes durante a semana e quase o dobro nos finais de semana. Do total das vendas, ele embolsa 30 por cento. O sucesso dele é tanto que chega a incomodar os demais colegas de profissão. Nesse ano, nem tanto. Mas na temporada passada saí fugido da praia porque os outros sorveteiros diziam que eu tirava a freguesia deles- lembra. Nessa temporada pode chover canivetes que eu fico até o fim.
O dom para a música, como gostar de ressaltar, veio da época em que trabalhou como Dj nas antigas casas de Show Xamego e Bangalô. Desde pequeno sempre quis ser cantor, mas não deu- revela. O gosto musical vai de Roberto Carlos, Simone, Zezé di Camargo e Luciano a Mozart. Mozart? É eu gosto dele, mas não sei agora citar nenhuma música de que eu gosto- diz.
Outro que também vem despertando a atenção nas praias é Ocimar Rodrigues, de Ponta Grossa, que está no ramo pelo segundo ano consecutiva. Para melhor vender bijou e algodão doce ele não hesitou, neste ano, em se vestir de palhaço com um chapéu a la tio Sam e cantarolar paródias de músicas muito conhecidas. Eu sou o palhaço casquinha- avisa ele. Consequentemente, o sucesso é maior entre a criançada. Eu atiço a criançada, mas tenho que tratar bem os pais porque são eles que tem dinheiro- analisa.
Mina, meu
sorvete é
legal. Tem até
sabor natural
Mas Ocimar, aos 24 anos, não é mais um ambulante. Quer dizer, é mas ao contrário do ano passado ele agora é o próprio patrão. Tudo porque um sujeito lhe ofereceu sociedade na produção de casquinha e de algodão doce. Para entrar no negócio, o pontagrossense entrou com uma parte em dinheiro (não revelada) e o restante com o trabalho. A empresa já conta com oito vendedores.
Poderia ficar parado, mas vendo porque eu gosto. Não sei ficar em casa... Claro que sei que não vou ficar rico, mas se eu não esbanjar posso até tirar um bom dinheiro- diz. Semanalmente, Ocimar diz que tira até R$ 500. O bijou e a casquinha custam, cada um, R$ 1,00. Mas para isso ele tem que andar até 35 quilômetros diariamente, durante seis dias da semana.Quer saber de uma coisa: quem mais come bijou é a mulherada da Praia Mansa (a preferida dos milionários)- avisa.
Pontos de referênciaClaro, nenhum vendedor ambulante está nesta vida porque quer. O londrinense Adriano Francisco da Cruz, de 18 anos, entrou porque há três meses não sabia o que era emprego. E, agora, como vendedor de côcos, ele solta o verbo. Londrina tá muito fraca de emprego. Fui procurar e só tem serviço de servente de pedreiro- diz ele, que anteriormente trabalhava na boate Paradise.
Bem, ele não está soltando rojões de alegria com a nova atividade. Porém, não reclama já que chega a ganhar, nos dias em que a freguesia e o sol estão inspirados, até R$ 20,00. O conterrâneo Adilson de Lima Souza, de 18 anos, também foi de mala e cuia para o litoral paranaense porque estava fazendo absolutamente nada. Diz que pretende ficar até março. Com o dinheiro, quero comprar uma motáo. E eu vou conseguir porque meus únicos vícios são Coca-Cola e salgados- avisa.
De longe, mas bem de longe é possível reconhecer o carrinho de Otávio Pereira de Souza. Chega a servir de ponto de referência. É que seu estabelecimento comercial ambulante é abarrotado de quinquilharias que vão às alturas. E ele vende de tudo: bolas, pulseiras, chapéus, baldinhos, bonés, canetas, cangas, óculos escuros, bichos de plásticos e etc, etc, etc, etc e mais etc.
Depois de vender por anos a fio nas praias do litoral paulista, ele veio às praias do Paraná tentar a sorte. Está há 40 dias pela região de Matinhos e Caiobá. As vendas não estão boas não... Sei lá... o pessoal tá devagar. O pessoal de São Paulo compra mais...Eu acho que aqui vendo pouco porque... o pessoal daqui tem um ritmo diferente, né?- divaga.
Estoque de verãoFamília que vende unida, põe, unida, mais dinheiro no bolso. E foi dentro dessa filosofia que Marco Aurélio Martins dos Santos, de Curitiba, resolveu se tornar um vendedor ambulante, depois de amargar seis meses de desemprego. Não só ele, como a esposa, a prima da esposa, e o namorado da prima da esposa investiram, cada um, R$ 1 mil em cerveja, refrigerante, água mineral e mate e estocaram tudo num freezer.Já estamos quase pagando o que investimos- informa.
Cangas e mais cangas, além de vestidinhos estampados. Esses são os produtos que um grupo de vendedores de Minas Gerais levam para cima e para baixo. Ah, rapaz, ser ambulante tem um pouco de chatura. A pior coisa é andar nesse sol quente e não vender nada. Quando não vendo, entrego a Deus- reclama Milton Dias dos Santos que veio de Aracuaí. Tem bastante gente vendendo e se a margem de lucro fosse boa, a gente vendia logo e ia embora desse sol- completa. A canga é vendida por R$ 15,00 e o vestido a R$ 10,00.
Eva dos Santos Manzano uma simpática curitibana está trabalhando como ambulante pela primeira vez. Não que ela morra de amores pela atividade, mas vai ter que aguentar firme até o carnaval para conseguir juntar dinheiro e, assim construir a casa própria. Para isso, abandonou a antiga profissão de servente de escola porque ganhava pouco. E teve a total aprovação do marido. Ela vende sucos de laranja para uma empresa. Para aumentar o lucro resolveu, de uns dias para cá, vender também cerveja por conta própria. O duro é que eu não tenho cara de vendedora de cerveja e tudo acaba ficando empacado- diverte-se. Isso sem contar os dias em que os bolsos dos clientes estão fechados para balanço. Que paraíso mais instável é a praia, não Eva?!
Kraw PenasPara vender na praia, o ambulante paga uma taxa
Atividade facilitada


