Ganhando a guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de janeiro de 1998
Ricardo Bairos Planet Pop/AE 
ReproduçãoCourtney Love hoje mostra imagem reabilitada e dá passos seguros no cinemaCourtney Love é a figura mais polêmica de Hollywood no momento. Ela provou esta semana que quer preservar ao máximo sua nova imagem, a de ex-junkie que deu a volta por cima depois do suicídio do marido, o músico Kurt Cobain. A atriz de O Povo contra Larry Flynt ganhou por desistência do Festival do Filme de Sundance, em Park City, Utah, e conseguiu o cancelamento da exibição de um documentário sobre a relação dela com o líder do Nirvana, que se matou em 1994. Kurt and Courtney, do jornalista Nick Broomfield, iria ser mostrado no evento ontem à noite. O ator Robert Redford, de acordo com o canal de televisão E! Entertainment, teria ficado com medo das ameaças de processo feitas pela líder do grupo Hole. Ela iria colocá-lo na Justiça por defamação.
Eu não estou surpreso porque ela tem feito de tudo para proibir o filme, disse o diretor de Heidi Fleiss: Hollywood Madam. Para mim, é uma questão de liberdade de expressão completou ele. É muito triste que Sundance seja influenciado por alguém como Courtney Love e todo o seu poder e dinheiro. Não houve comentários da atriz ou de sua assessoria de imprensa. O documentário controvertido e provocador é sobre os primeiros anos da carreira de Kurt Cobain. O final polêmico seria o questionamento do diretor sobre até que ponto ela não teria a ver com a morte dele. As aspas são da própria sinopse do filme que está no catálogo de Sundance.
O cantor morreu há quase 4 anos, aos 27. De acordo com a polícia, ele teria cometido suicídio. O problema é que há muitos rumores que ela teria provocado indiretamente ou tido participação efetiva na morte dele, que atirou na própria cabeça. Muitas das histórias do tipo teoria da conspiração estão na Internet, em sites de fãs do grupo Nirvana. O documentário Kurt e Courtney seria o primeiro trabalho mainstream a tocar no tema. Parte do hype em torno do filme está no fato de que o próprio pai da cantora dá depoimentos na produção e diz que a filha é culpada pela morte do músico.
Nick Broomfield diz que não tinha a intenção deliberada de sujar a imagem dela, mas que foi impossível não tomar este caminho diante dos fatos que surgiram ao longo da pesquisa. Eu queria que Courtney Love estivesse representada de maneira positiva no filme, mas sua tirania e o jeito como ela trata as pessoas são duros de engolir.
A desculpa usada pelo evento para não exibir o filme seria a preocupação em relação a direitos autorais de canções. Eles teriam medo de um eventual processo da gravadora EMI por causa de uma música de Cobain e outra de Love. Fomos informados de que há muitos assuntos legais pendentes em relação ao documentário, informou oficialmente o porta-voz de Sundance. O diretor disse que a desculpa é esfarrapada, porque ele mesmo teria sugerido o corte das duas canções para garantir a exibição do filme. O ator Robert Redford não comentou o incidente.
IntrigantesOs detalhes sobre a vida dela apareceram no livro que retrata toda a trajetória da ex-junkie e viúva transformada em atriz de sucesso. Courtney Love: The Real Story, de Poppy Z. Brite (Ed. Simon & Schuster), revela a intimidade de um dos casais mais intrigantes do pop nos últimos anos e cobre desde o período em que eles se conheceram em Seattle até a conquista de Hollywood, passando pelos detalhes do suicídio dele.
A cantora teve uma das trajetórias mais curiosas do pop dos anos 90. O livro trata de seu trabalho, mas também analisa um pouco suas atitudes nas últimas semanas de vida do músico. Ela ficou conhecida como a companheira do músico messiânico, sempre associada a confusões, uso de drogas e comportamento punk. Transformada em celebridade de carona na fama do Nirvana, a roqueira viu o Hole ficar em segundo plano perto das imagens impressionantes em que era vista em público. Com cabelos desgrenhados, make-up borrado e roupas imundas, ela ganhou a simpatia do público por formar um casal perfeito com o roqueiro depressivo.
Depois de aparecer como a companheira do astro, sempre presente nas internações do marido em hospitais e em fases de problemas com a polícia, ela ficou grávida e causou polêmica ao afirmar em entrevistas que não pretendia parar de usar heroína até o nascimento do bebê. Ela já havia revelado que na cerimônia de casamento dos dois, em 1992, no Havaí, o casal estava sob influência da droga. Com a morte dele, quando ela estava internada em uma clínica de reabilitação de viciados, a cantora diz que chegou ao fundo do poço e que foi vista como uma mulher omissa que não se esforçou para salvar o marido de suas paranóias. Quando ninguém esperava, o Hole passou a fazer sucesso e ela começou uma promissora carreira no cinema, apareceu em uma ponta no filme Basquiat e se consagrou, mais tarde, em O Povo contra Larry Flynt.
O livro foi escrito por uma amiga da cantora, que teve acesso ao diário dela e a revelações de inúmeros amigos do casal. O volume é uma boa chance de compreender o relacionamento dos dois e a impotência de Love em relação à crescente dependência de Cobain pela heroína. Ela é retratada como uma mulher forte, mas não o suficiente para tirar o marido da depressão, e muito apavorada para controlar o próprio vício em drogas variadas.


