São Paulo, 18 (AE) - "Assim É Que Se Ria", de Gianni Amelio, que estréia amanhã (19) deve ser tratado como um filme especial. Tão especial que merece alguns esclarecimentos. O misterioso título desse que foi o grande vencedor do Festival de Veneza de 1998 se refere a uma seção que a popular revista "La Domenica del Corriere" publicava nos anos 50. "Cos Ridevano"
no original, era uma página de humorismo, com material, ao que parece, enviado à revista pelos próprios leitores. Ela publicava desenhos humorísticos antigos, velhos de 20 ou 30 anos. Antigas piadas, que não faziam mais rir, mas provocavam apenas certa curiosidade - ou, como lembra o diretor, um aperto no coração daqueles que eram jovens na época em que aquelas anedotas faziam sentido e agora (estamos falando dos anos 50) tinham saudades dela. Portanto, o filme começa com uma dupla referência temporal. Ambienta-se entre o fim dos anos 50 e 60 e se refere, por seu título, a um tempo ainda anterior. Os homens da década de 50 podiam sorrir, com condescendência, daquilo que fazia rir seus conterrâneos uma ou duas gerações mais velhas. Da mesma forma, os homens de hoje, do fim dos anos 90, podem talvez sentir estranheza diante de fatos que angustiavam seus compatriotas da década de 50. Tudo é relativo e tudo muda.
Mas os fatos, as sensações e mesmo o senso de humor encontram passagens entre um tempo e outro. Alguma coisa permanece. Tudo isso porque, com sua história de dois irmãos sicilianos, Giovanni (Enrico Lo Verso) e Pietro (Francesco Giuffrida), Amelio relembra uma época de grande divisão, na Itália, entre o norte desenvolvido e o sul, atrasado. A "questione meridionale", como se dizia, feita de níveis de industrialização e educação diferentes entre partes diferentes do país, tudo somado a preconceitos, hábitos locais arraigados, bairrismo e uma ancestral história de divisões. Por isso Giovanni, o irmão mais velho, migra para Turim, terra da Fiat, onde já mora Pietro, o mais moço. O caçula, supõe-se, será a salvação da família, pela via do estudo.
Há essa presença simbólica do saber como modo de ascensão social, que se espalha pelo filme de uma ponta a outra. Talvez as cenas mais comoventes sejam aquelas em que Giovanni, analfabeto, carrega os livros do irmão por uma Turim chuvosa, fria, hostil. Há uma arte de interpretar, em "Lo Verso", que torna essas cenas ainda mais pungentes. Ele se agarra aos livros
com mãos que certamente não têm o hábito de escrever, como quem precisa reassegurar-se da própria existência. Nesse ancestral preconceito da classe trabalhadora, captado por Amelio, o saber, um curso, o diploma são os únicos passaportes sociais disponíveis. Por isso, Giovanni não hesitará em se sacrificar - e ousar tudo - para que seu irmão possa estudar.
O filme os acompanha durante um arco temporal de seis anos - de 1958 a 1964. Seis anos resumidos em seis dias distintos, cada um dos quais com um título particular, como se fossem episódios: "Chegada", "Enganos", "Dinheiro", "Cartas", "Sangue", "Famílias". Há, logo se vê, um história completa resumida sob esses títulos. A chegada difícil do provinciano a Turim; as tentativas de adaptação e o conhecimento da lei de selva da cidade grande; a percepção da importância do dinheiro e a dificuldade para ganhá-lo; a distância física entre aqueles que se querem e a maneira de vencê-la, a correspondência, mas apenas para quem sabe ler e escrever; a violência e a reconciliação com a família, mas de uma maneira inesperada, como o espectador poderá conferir.
Já se disse - e é verdade - que "Assim É Que Se Ria" vem na tradição do grande Luchino Visconti de "Rocco e Seus Irmãos". Nessa obra-prima, recentemente relançada no Brasil em cópia nova e versão integral, Visconti estudava o mesmo fenômeno: a desintegração de uma família do mezzogiorno, o sul italiano, ao se mudar para Milão em busca de melhores condições de vida. Nessa história, havia a mãe, viúva, e seus cinco filhos - cinco como os dedos de uma mão. Metáfora forte, da coesão (problemática) da família agrária diante da sociedade industrial. Regaço - Em Amelio não há o núcleo familar propriamente dito, apenas os dois irmãos. É uma das diferenças. Da perspectiva dos anos 90, que é quando o filme é feito, elimina-se a presença da mamma centralizadora, que aglutina e enfrenta as diferenças entre os irmãos e tenta mantê-los unidos. Há, em Visconti, aquela família sem pai, mas que funciona como regaço e também palco da tragédia. Em Amelio, são dois homens, duas ilhas, pode-se dizer, que se diluem mais facilmente na multidão. Giovanni e Pietro estão mais sujeitos à desagregação, são mais frágeis que a conturbada família Parondi da história de Visconti. São os anos 50, recorde-se, reavaliados à luz dos anos 90.
Amelio não esconde que deseja falar do presente buscando um tema do passado. Na verdade, a "questão meridional" italiana pode se ter atenuado, mas não desapareceu, nem muito menos foi resolvida. Basta ir lá e ver como estão vivos os preconceitos, a intolerância, a vontade separatista. O filme é uma reavaliação de ética e ótica. Insinua que o passado, mesmo o mais longínquo, continua vivo e atuante no presente. A universalidade dessa tese faz com o filme tenha sentido muito além das fronteiras italianas. Serviço - "Assim É Que Se Ria". Drama. Direção de Gianni Amelio. Com Francesco Giuffrida, Enrico Lo Verso. Duração: 124 minutos.

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