O espetáculo musical ‘‘Um Trem Chamado Desejo’’, uma deslumbrante viagem comandada pelo grupo mineiro ‘‘Galpão’’, foi a melhor peça apresentada no 10º Festival de Teatro de Curitiba até ontem. Seu Coisinha, Fofinha, Lindinha, Praxedes, Ana Florisbela, Abigail, Gracinha, Madeira, Sandoval, Lopes e Meireles transportaram o público para a malandragem inocente do início do século, lá pras bandas de Minas. Nas apresentações no Teatro da Reitoria, a platéia formava um só organismo, uma só respiração, tamanho o envolvimento com o espetáculo.
Luís Alberto de Abreu construiu uma dramaturgia que transborda brasilidade. A linguagem maliciosa, a sensualidade, o comportamento musical e a mistura de raças não consegue traduzir o impressionante universo criado pelo dramaturgo. ‘‘Um Trem...’’ é uma homenagem a um ofício, um resgate de uma história no tempo-espaço. A loucura criativa do grupo teatral retratado na peça se fez presente no deboche das emoções.
Na peça dentro de ‘‘Um Trem...’’, os atores se apresentaram de costas para a platéia real. Depois de cancelar a peça por falta de público, os atores migraram para o cinema, que estava surgindo e seduzindo a todos. Na sétima arte, descortinou-se a decepção e eles retornaram aos palcos. Enquanto falam ‘‘o teatro está morrendo’’, a montagem dirigida magistralmente por Chico Pelúcio vitamina o cenário teatral brasileiro.
Percebe-se na sólida dramaturgia de Abreu a capacidade de rir diante das desgraças. Para mostrar a fidelidade a um ofício, revelou-se os bastidores da relação entre as pessoas. Luís Alberto de Abreu mostrou nessa tragicomédia musical que a palavra mágica no teatro é perseverança. A auto-referência se fez presente em todo o espetáculo, porque ilustra as dificuldades pelos quais os grupos de teatro enfrentam para se manter na ativa. Por isso, o teatro de metalinguagem. As sacadas de genialidade se sucederam no palco e inebriavam o público.
O grupo Galpão serve de referência para outras companhias, pela proposta sólida no cenário teatral brasileiro, pela pesquisa de linguagem e pelo teatro de alto nível. Enquanto os pós-modernos tentam deletar o tradicional, o Galpão preserva, luta pelo tombamento de um patrimônio: o genuíno teatro nacional. ‘‘Um Trem Chamado Desejo’’ atravessou o teatro brasileiro e virou só sentimentos. Vida longa ao Galpão.

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