Galeria Brito Cimino expõe 23 obras de Lígia Clark
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de abril de 1999
Por maria Hirszman 
São Paulo, 19 (AE) - Os 23 trabalhos de Lígia Clark (1920-1988) expostos a partir de amanhã (20) à noite na Galeria Brito Cimino, em São Paulo, traçam um sucinto panorama dos primeiros anos de sua carreira (de 1956 a 1968), já indicando a posição cada vez mais radical adotada pela artista, até romper a barreira entre espectador e obra de arte e situar-se, completamente sozinha, na fronteira entre arte e psicanálise.
A mostra, organizada pelos marchands Luciana Brito e Fábio Cimino com obras de três coleções distintas, antecede por pouco a inauguração no MAM de São Paulo da retrospectiva de sua obra montada pela Fundação Antoni Tàpies, de Barcelona. Segundo Luciana, trata-se de uma feliz coincidência, que permitirá ao público ter duas visões distintas da obra revolucionária de um dos maiores nomes da arte nacional.
Lígia Clark começou tarde. Já era uma mulher madura, casada e mãe de três filhos, quando decidiu começar a estudar pintura com Burle Marx, em 1947. Na galeria, pode ser visto um curioso retrato de mulher - provavelmente um auto-retrato - desse período. Mas o início real da exposição são as pinturas abstratas que revelam o engajamento da artista aos movimentos concreto e neoconcreto. Já é possível perceber nelas seu interesse em eliminar a fronteira entre o plano pictórico e o espaço circundante, pesquisa que vai ganhar novas dimensões com as superfícies moduladas do fim dos anos 50. "Meu objetivo era fazer o espectador participar ativamente desse espaço expresso, penetrando-o e sendo penetrado por ele", explica ela num depoimento de 1959. A partir daí, seu trabalho vai adquirindo um caráter orgânico, presente até mesmo nos títulos das obras. Os planos saltam da parede e ganham vida nos "Bichos" e posteriormente nos "Trepantes". São estruturas articuladas manipuláveis.
Uma das peças de maior destaque é um imponente trepante de mais de 2 metros, que infelizmente deverá deixar o País e integrar uma uma coleção institucional estrangeira se nenhum museu ou coleção nacional tomar a iniciativa de adquiri-la. Apenas duas peças da mostra estarão à venda (a outra é um Bicho) confirmando o caráter institucional do evento e a dificuldade de conseguir-se obras de Lígia Clark no mercado.


