Gal respira novos ares
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domingo, 22 de dezembro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Mudança de ar faz bem a Gal Costa. Depois de trocar o Rio de Janeiro por Salvador, ganhar peso e tranquilidade, a cantora também mudou de gravadora. Não faz mais parte da BMG, onde fortaleceu a fama de melhor cantora brasileira. Artista e mandachuvas da multinacional não mais vinham se entendendo e o casamento de quase 20 anos, há tempos sendo levado em banho-maria, acabou. Faz ela parte agora de uma pequena gravadora, a MZA, de Marco Mazzolla, que em parceria com a Abril Music está colocando para rodar um disco em que Gal Costa se despe do ar aristocrático e sisudo que as grandas damas da canção envergam. ''Gal Bossa Tropical'' vem para refrescar a discografia da baiana que, ultimamente, parecia estar fadada a álbuns burocráticos cheios de boas intenções e pouca ousadia. Logo ela uma cantora moderna, como sempre gostou de frisar, estava vacilando. ''Gal Bossa Tropical'' pode não ser a redenção, mas dá sinais de que Gal ainda tem o que dizer, ou melhor, cantar.
É um disco de regravações. Pop por convicção. A única música inédita veio de Vander Lee, compositor ainda desconhecido, que ofertou e foi aceita de bom grado a tocante ''Onde Deus Possa Me Ouvir''. Balada existencialista em que Gal rasga a voz para envernizar versos simples: ''Meu Amor.../ Deixa eu chorar até cansar/ Me leve pra qualquer lugar/ Aonde Deus possa me ouvir/ Minha dor...''. Bela faixa de um disco marcado pelo ecletismo do repertório em que Beatles, Titãs, Erasmo Carlos e Tom Jobim se confraternizam numa boa.
A sonoridade é que faz a diferença. Em vez de cordas excessivas quase uma marca registrada de Gal Costa um enxuto e afinado time de quatro músicos: Luiz Meira (violão), Paulo César Barros (contrabaixo), Marcos Suzano (percussão) e Armadinho (bandolim e guitarra baiana) este último o responsável por momentos marcantes de ''Gal Bossa Tropical''. Ou seja, o álbum apoia-se basicamente no violão e guitarra. No entanto o principal instrumento ainda continua sendo a voz de Gal, que valoriza mais os timbres graves e médios.
Curiosidades: a versão de ''The Fool on the Hill'', dos Beatles, com um leve toque de afoxé, e a retirada da película melancólica de ''Desde que o Samba é Samba'' o solo inicial do bandolim de Armadinho é algo maravilhoso. Até o momento, a releitura mais bonita do samba de Caetano Veloso. Agora, vai ser difícil alguém dar uma interpretação tão bela a ''Epitáfio'' (Sérgio Brito) teria que ser Gal a dar a versão definitiva a um dos recentes hits dos Titãs. É a melhor, mais expressiva e significativa canção de ''Gal Bossa Tropical''. Dolorosamente linda!!
Ao todo 12 faixas. Ecletismo pouco é bobagem. E se há uma reserva de domínios a Cássia Eller, Gal não deixa sequelas maiores na regravação de ''Socorro'' (Arnaldo Antunes- Alice Ruiz). ''Marcianita'', anteriormente registrada por Caetano Veloso sob vibrações tropicalistas, a música mexicana se transforma numa salsa. E do fundo do baú, surge Rita Lee com ''Ovelha Negra'', onde a cantora troca a palavra ''pai'' por ''mãe''. ''Todo mundo sabe que fui criada pela minha mãe, não tive nenhum relacionamento com meu pai. Liguei para Rita e pedi permissão para dizer 'mãe''', explicou Gal em entrevista concedida a Deus sabe quem, vinda como material de divulgação.
Há pequenas recaídas. A versão ''As Time Goes By'' e ''O Amor em Paz'' (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), por mais belas, ternas e eternas que sejam, ficam deslocadas em meio à jovialidade do repertório. A irreverência fecha o disco. Com ''Cada Macaco com Seu Galho'', do agora cult Riachão, Gal manda um possível recado cifrado às multinacionais: ''Esse negócio da mãe preta ser leiteira/ Já encheu sua mamadeira/ Vá mamar noutro lugar''. Se não é nada disso, fica o dito pelo não dito.
Uma coisa é certa: a saída da BMG fez muitíssimo bem a Gal Costa. A multinacional, que sequer relinchou de alegria com a exclusão de Maria Bethânia e Paulinho da Viola do seu casting, só não se tocou de uma coisa: os grandes sempre caem em pé. E daí que, nessa altura do campeonato, importante mesmo é apreciar ''Gal Bossa Tropical'', um disco em que Maria das Graças começa a se reposicionar como a cantora melhor aparelhada da MPB.


