Gal, em síntese
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quinta-feira, 02 de abril de 1998
Zeca Corrêa Leite 
ReproduçãoGal Costa: mais de 60 mil pessoas já assistiram ao show que ela traz hoje a CuritibaDepois de anos ausente da cidade, Gal Costa finalmente retorna a Curitiba. Não vai esquentar lugar: a cantora faz uma única apresentação na Forum do show Acústico, que se transformou em disco gravado ao vivo, e foi visto até agora por algumas capitais brasileiras e mais Buenos Aires e Nova York. Na platéia estava o crítico do New York Times, Peter Watrous, que se encantou com o espetáculo.
É um show muito simples de revisão dos meus 30 anos de carreira, em que recanto o que cantei nos anos 60 e 70, mas de forma muito superior, explica a artista. Mais de 60 mil pessoas aplaudiram a montagem que sintetiza no transcorrer do espetáculo aquilo que foi ouvido não só nos 60 e 70, como avança por outros tempos.
Prova disso é Vaca Profana, datado dos anos 80. Tem também clássicos como Aquarela do Brasil de Ari Barroso, Sampa e London, London de Caetano Veloso, Só Louco de Dorival Caymmi. As canções de diferentes escolas e épocas brasileiras convivem pacificamente, mesmo com o rock mais moderno, aqui representado pela Lanterna dos Afogados de Herbert Vianna.
A baiana Maria da Graça Penna Burgos Costa, ou Gracinha, como era conhecida - sua mãe, Mariah, chamou-a assim até o fim da vida -, desceu no Rio de Janeiro em 1964 e testemunhou o surgimento da conterrânea Maria Bethânia no incendiário Opinião, show que acabou dando nome ao teatro onde era apresentado no Rio de Janeiro.
Gracinha queria ser cantora e participou de uma faixa no primeiro LP da amiga Bethânia; também esteve no disco de estréia de Caetano Veloso. Na capa, o crédito: participação especial de Maria da Graça. Gal Costa surgiria depois, e quando apareceu foi para arrasar.
Apontada como sendo a João Gilberto de saias, ganhou de presente de Caetano Veloso a música Baby, em 1968. Divino Maravilhoso, defendida no 3º Festival de MPB da TV Record, transformou-a na musa da Tropicália. Numa época em que os artistas apresentavam-se de smoking e as mulheres com os cabelos duros de laquê, Gal invadiu o espaço com sua cabeleira e um enorme colar de espelhos que ia até a cintura.
Tímida e ousada, foi ela que segurou as pontas tropicalistas quando os militares promoveram as fugas de Gil e Caetano (criadores do movimento) para a Europa. Eles em Londres e Gal aqui. Mantive no Brasil a ideologia do tropicalismo, afirma a cantora.
Se eu não tivesse ficado como porta voz, com minha irreverência, com aquele meu cabelo, com aquela minha imagem que as pessoas relacionavam com a de Caetano, talvez o movimento nem tivesse sobrevivido à ditadura.
Dona de uma carreira internacional e a voz espalhada em 22 discos, Gal Costa detém-se neste momento na releitura de muitas obras. Pena que ela não se lembre de uma apresentação mágica num programa da TV Record quando, descalça e à moda hippie, empunhando um violão, cantou Trem das Onze, clássico de Adoniran Barbosa.
Somente ela, um microfone e o violão. Auditório elegante, cheio de classe, comportadíssimo. Usando um fio de sua poderosa voz, Gal Costa cantou a música com suavidade. Porém, aos poucos, a platéia começou a acompanhá-la baixinho, e como uma maestrina às avessas, ela passou a comandar a assistência como um grande coral.
Gal tocava, o público cantava e ela fazia interferência com vocalises. Até que veio o vozeirão todo e a música foi chegando ao fim. Talvez tenha sido um momento único, talvez pudesse ser tentado de novo. Para quem arrombou tantas portas em 30 anos, um ensaio desses - trazer de volta um instante de magia - poderia ser um exercício fascinante.


