GAL DÁ VOZ AO AMOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2001
Antonio Mariano Junior<BR>De Londrina 
Releituras! Assim quis ela e a gravadora BMG teve que dizer amém. Ora, o nome dela é Gal. Gal Costa!! Que em seu 26º disco achou por bem cantar o amor em todas as nuances e cores e dores e delícias. Para tanto buscou novamente a conivência musical do maestro Wagner Tiso para revestir as 12 faixas relidas de ''Gal de Tantos Amores'' 13, na verdade, se contada ''Caminhos do Mar'' (Dori Caymmi-Danilo Caymmi-Dudu Falcão), trilha de abertura da novela ''Porto dos Milagres'', incluída como Bônus Track, a única canção fresquinha do CD. É o primeiro disco temático da cantora baiana ainda detentora da mais qualificada técnica vocal da MPB. A idéia de cantar o amor partiu do diretor global Daniel Filho que, junto com Tiso, assinam a produção do disco.
Numa análise rasteira o álbum insinua-se burocrático, feito para fãs atualizarem a discografia de Gal Costa. Nem tanto, nem tanto assim... Trata-se, de fato, de um disco digerível, redondinho com o perdão do trocadilho. Em ''De Tantos Amores'' Gal está vocalmente confortável nos timbres médios e graves com vibratos utilizados ecomicamente. A cantora formatou o disco revisitando canções de amores de outros interpretes e também com canções consagradas anteriormente por ela.
Se falta emoção em ''Outra Vez'' (Isolda), eternizada por Roberto Carlos, como não se render a ''O Amor'' (poema de Maiakovski musicado por Caetano Veloso e Ney Costa Santos) agora em versão delicada em que o poema (belíssimo) entra fatalmente na alma ao contrário do registro histriônico crivado por Gal em 81. Se admirável é a releitura-resgate de ''Última Estrofe'', uma das pepitas de Orlando Silva dos anos 30, Gal pecou em retocar ''Folhetim'' (Chico Buarque), fraquejada por um arranjo latinizado. ''Índia'', outro exemplo, deve ficar na memória dos tempos de Gal Tropical (79).
Geraldinho Carneiro verteu para o português ''Contigo Aprendi'' e ''Sophisticated Lady'' (Mitchel Prish- Duke Ellington) essa última por melhores das intenções ainda deixa a desejar à versão de Augusto de Campos, registrada antologicamente por Elza Soares e Caetano Veloso em 1985. Agora o melhor do amor que a voz de Gal oferece além de ''O Amor'' é ''Abandono'', canção de Caetano Veloso que passou batida nas vozes das senhoras do Quarteto em Cy, em despercebido disco de 1980.
Em suma, apesar de alguns pesares ''Gal de Tantos Amores'' vale a pena ser ouvido. É que a voz de Gal, mesmo sem a efervescência de outrora, ainda rende os mortais inclusive aqueles que têm o coração pulsando na cabeça.
A seguir a entrevista que Gal Costa concedeu com exclusividade a Folha2 em quem fala de amor, obviamente. Admite ela que o lançamento de ''Gal De Tantos Amores'' foi adiado (deveria ter saído em maio) por conta do apoio público ao ex-senador Antonio Carlos Magalhães quando tentava fazer o Brasil digerir que era um santo em forma de político; de regravações (''regravar é preciso sim''); das cobranças da crítica especializada sempre atenta à sua obra (''os críticos não sabem exatemente o que querem''); e de seu ofício de cantora (''ainda tenho muitos planos e sonhos por realizar'').
É um disco que fala de amor. Você está amando alguém?
Sim, é um disco que tem como tema central canções que falam de amor de uma maneira bem diversificada. Quem vive sem amor? Claro que estou amando! Em tudo que faço coloco amor. Acho que o amor move a nossa vida, sem ele tudo seria muito chato.
Trata-se de um álbum temático, de regravações. Não passou por sua cabeça pedir canções inéditas sobre o tema a compositores?
Pedi uma canção para o Caetano Veloso mas ele não pode fazer. Recebi uma linda canção do Lenine mas ela não se encaixava na temática do disco. Então, optei por fazer regravações de canções que gosto e também do meu repertório.
Uma de suas marcas sempre foi lançar novos compositores ou dar força aos iniciantes. Dessa vez não aconteceu. Ninguém dessa nova geração lhe desperta a atenção?
Realmente lancei alguns compositores como Luiz Melodia e Zeca Baleiro e tantos outros na década de 60. Existem ótimos compositores dessa geração nova mas não quis gravá-los. Por que sempre ter a obrigação de ter que lançar canções inéditas? As regravações também são uma opção muito boa se vista por alguns ângulos.
A inquietude vocal de outras épocas parece estar aplacada. Nesse disco você canta num registro mais confortável, sem vibratos prolongados. Isso se deve à maturidade ou foi proposital?
Acho que estou numa extraordinária fase vocal, com muita técnica, emoção e desprendimento o que acho necessário para se ter uma interpretação íntegra. Ao contrário do que você diz, hoje tenho a tendência a prolongar as notas e sempre usei os vibratos de uma forma equilibrada, diversificada, econômica. Não sei o que você chama de ''inquietude vocal''... Será que você sente falta dos gritos experimentais que eu dava nos anos 60 e até o início dos anos 70? Acho que isso não faz mais sentido nos tempos de hoje. Mesmo porque, a minha verdadeira essência é a música e o que você tem que avaliar é o meu amadurecimento como cantora. Os tons mais graves são propositais, afinal de contas tenho que explorar a minha extensão vocal que é bastante grande.
Das regravações de canções de seu repertório qual você acha que chegou a um registro melhor que a anterior? Aliás, regravar é preciso?
Regravar é preciso sim. Ella Fitzgerald gravou inúmeras vezes a mesma canção. Bem, basta pegar os discos de Billie Holiday para ver a mesma coisa. Se gravei as mesmas canções foi porque tive um bom motivo. Existem canções do meu repertório que tenho vontade de regravar, como por exemplo ''Eu te amo'' dos ''Doces Bárbaros'' e tantas outras. Ninguém questiona Spielberg por ter refeito vários filmes. Se ele volta a mexer com os mesmos temas, é porque há uma forma justificável e inerente à obra dele. Quando regravo uma música do meu repertório, tenho o privilégio de revê-la de uma forma totalmente desprendida, sem me sentir presa ao peso da primeira versão, o que acho de certa maneira uma coragem. Somente uma grande cantora tem culhão para fazer isso, e sabe por quê? Porque uma grande cantora como eu percebe sua evolução, o crescimento como intérprete e pode e deve regravar canções do seu repertório, desmitificar, reconstruir, dar uma cara nova ao que insiste em tornar-se definitivo. Nada é definitivo quando se é intenso e se tem paixão. Canto com paixão e será assim até eu ficar velha, com fé em Deus e nos Orixás.
A crítica a incomoda até que ponto?
A crítica me incomoda não do ponto de vista pessoal, mas pela maneira quase irresponsável como avalia a qualidade de um disco. Já reparou que todo mundo hoje em dia quer avaliar as coisas em dois minutos? Para se conhecer um disco e entendê-lo, tem que se ouvir muitas vezes. Música é como fazer sexo: você tem que ouvir várias vezes e se deixar levar por ela para depois ter uma visão crítica e generosa. Cobram de mim ousadia e quando mostro minhas tetas de vaca profana me atacam. Os críticos nunca estão satisfeitos; não sabem exatamente o que querem.
Procede a informação de que o lançamento do CD teria sido adiado em função de suas declarações pró ACM? Você gostaria de comentar a renúncia do ex-senador?
Sim, o disco foi adiado em função da repercussão exagerada dada pela imprensa em relação a esse assunto. Acho que fui mal interpretada quando fui ao Pálacio de Ondina (em Salvador) abraçar o ex-senador. Não foi apoio político. Fui apenas dar meu apoio moral a um homem que fez muito pela cultura da Bahia. Político é político, artista é artista, e cada macaco no seu galho. Nunca gostei de política, não tenho partidos e nunca subi em palanques. Da minha integridade ninguém pode duvidar. Nunca mamei nas tetas do governo, nunca recebi ajuda do governo e nunca apoiei nenhum governo. Sou uma artista livre e independente e todo mundo sabe onde ganho meu dinheiro. Portanto, não tenho o rabo preso. Que patrulha é essa? Nunca apoiei o ato político dele. É um absurdo que queiram me cobrar isso. Fui lá e iria de novo. Embora meu gesto tenha sido pessoal e singelo, ergueu-se contra ele a ira de um improvisado moralismo nacional. Mais odioso do que negar, mesmo a um criminoso, o conforto de uma afeição é querer crucificar alguém por estender a mão a uma pessoa em situação difícil, ainda que tenha cometido um grave erro.
Você é considerada, e não é de hoje, a principal cantora brasileira. Isso a envaidece até que ponto?
Isso me dá forças para seguir em frente e ser contemporânea; estar integrada ao tempo em que vivo e acompanhar os avanços do mundo moderno. Dar novos sentidos ao que existe é tarefa do artista, assim como reconstruir nossa própria história, exercitar e revirar os sentidos dados, desprender-se e acolher tudo o que nos acontece. É sempre maravilhoso!
Prestígio você tem, já deixou sua marca na história da MPB. Mas o Brasil, como se sabe, tem memória curta. Você teme, a exemplo de outras imensas cantoras brasileiras (Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Elza Soares, só pra citar algumas), ficar sem gravadora, não ter mais tantos holofotes da mídia?
Você tem razão: o Brasil tem memória curta e isso é muito ruim para nós que temos uma das músicas mais ricas, senão a mais rica do mundo. O Brasil não cultiva a sua própria história. Para você ter uma idéia, em muitas lojas de discos deste grande planeta, encontram-se discos raríssimos de música brasileira. Aqui você não encontra e nem sequer lembra dessas pérolas. Todos temos que saber o momento exato de parar. E hoje a possibilidade de estarmos em tantos lugares em tão pouco tempo é uma realidade do mundo moderno, o que facilita poder expandir nosso trabalho, dar rumos novos à nossa carreira sem ficarmos restritamente presos ao Brasil.
Por fim a que você atribui até agora sua longevidade artística?
Ao fato de estar atenta, de ter paixão pelo meu trabalho e de ainda ter muitos planos e sonhos por realizar. De ouvir a minha voz lutando contra as misérias do cotidiano e me ressuscitando.


