Mauro Dias
Agência Estado
Gal Costa estréia seu novo show hoje, no Palace, em São Paulo. Cantando só Tom Jobim. Em algum momento da temporada de quatro semanas, o espetáculo ‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’ vai ser gravado, ao vivo, para virar disco. A gravadora BMG prevê o lançamento do CD para outubro. Gal estará em turnê – de São Paulo, o show segue para Belo Horizonte e Brasília. Não há data prevista para estréia no Rio de Janeiro. Poderá ser em novembro ou fevereiro, a depender de acerto com as – hoje em dia, poucas – casas de lá.
Tom Jobim costumava dizer que Gal Costa cantava suas músicas como ele gostava de ouvi-las (antes dele, João Gilberto dizia que Gal Costa era a maior cantora de samba – entenda-se bossa nova – do Brasil de todos os tempos). Curiosamente, Gal nunca fez um disco inteiro dedicado a Tom, como fez, por exemplo com a obra de Caymmi, num trabalho memorável. Gal e Tom tinham planos para reparar a falha.
‘‘Um pouco antes de morrer, Tom me disse que ia aos Estados Unidos fazer uma ‘revisão’ e que, na volta, gravaríamos, enfim, nosso disco’’, lembra a cantora, que respondeu ao maestro: ‘‘É só você estalar os dedos e eu vou.’’ E o maestro morreu: ‘‘Aquela desgraça’’, lamenta a cantora. Mas sempre é tempo de cantar a obra de Tom.
O maestro não estava sozinho ao julgar que suas músicas soavam melhor do que nunca na voz de Gal. Soavam e soam, os ouvintes atentos sempre souberam disso. Gal Costa tem o mais belo timbre de voz da música brasileira, talvez o mais belo timbre feminino de toda a música brasileira. Ouviu Tom Jobim desde a infância, tornou-se amiga íntima do compositor, assistiu à criação de boa parte de sua obra, interpretou-a, muitas vezes a duas vozes com ele.
É o caso do ‘‘Tema de Amor para Gabriela’’, uma das canções obrigatórias no repertório de ‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’. Outras são ‘‘Fotografia’’, ‘‘Piano na Mangueira’’ (Tom e Chico Buarque), ‘‘Chega de Saudade’’ (Tom e Vinícius de Morais), ‘‘Discussão’’ (Tom e Nilton Mendonça), ‘‘Por Causa de Voc꒒ (Dolores Duran e Tom), ‘‘Bonita’’ (Tom e Ray Gilbert), ‘‘Janelas Abertas’’ (só de Tom).
Embora reconheça a dificuldade de escolher uma predileta, Gal Costa cita ‘‘Fotografia’’: ‘‘Eu a ouvia adolescente, em Salvador, com a Maysa e com a Silvinha Teles...’’ Mas problema maior foi escolher o repertório. ‘‘Quis pegar músicas desde antes da bossa nova, passando pela bossa e chegando às obras mais recentes, para dar uma idéia geral’’, conta a cantora.
‘‘Claro que, com a obra de Tom, seria possível fazer quatro ou cinco CDs duplos, mas nada me impede de fazer um segundo volume, quem sabe um terceiro’’, diz. ‘‘Dedicar discos a Jobim era algo que eu devia a mim mesma, devia ao Tom, devia ao meu público’’, admite. Um caminho fácil para chegar ao sucesso? Pode haver quem imagine isso. Mas é raciocínio torto.
Grandes intérpretes, em todo lugar, sempre gravaram os grandes autores, e regravaram as mesmas canções, e novamente. Ella Fitzgerald cantou quase todo Cole Porter (e quase todo Gerswhin e Berlin) e esse é o mais importante trabalho dela. Que Gal Costa seja a intérprete de nosso maior clássico popular. Afinal, ela e Tom queriam fazer o disco juntos.
O espetáculo ‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’ tem direção de José Possi Neto, fã da cantora desde o tempo em que ambos moravam na Bahia, e conta com arranjos, direção musical e piano de Cristóvão Bastos. Infelizmente, não haverá orquestra: ‘‘É impossível viajar com orquestra’’, diz a cantora. Felizmente, o time de músicos é o melhor possível: Jurin Moreira (bateria), Zé Canuto (sax), André Neiva (contrabaixo), Sidinho Moreira (percussão), Iura Ranevsky (violoncelo) e Marcus Teixeira (violão).

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