Gal Costa e Ney Matogrosso cantam em SP, separados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 02 (AE) - Gal Costa canta só Tom Jobim, no Palace. No Olympia, Ney Matogrosso canta de Tom Jobim a Pedro Luís. Na mais bela voz feminina brasileira, as mais belas canções do mestre da canção popular, em tom de recital. Na voz aguda e perfeitamente afinada de Ney, um apanhado da produção musical, com ênfase maior na que vem dos anos 60 para cá - clássicos e novidades em clima feérico.
"Gal Costa Canta Tom Jobim" é uma estréia nacional. Vai ser gravado ao vivo, provavelmente na terceira das quatro semanas da temporada. Era sonho antigo da cantora cantar Jobim e só Jobim. Ela quase fez o disco a duas vozes, com ele. Estava combinado, mas Tom morreu. "Vou aos Estados Unidos fazer uma revisão e na volta a gente grava nosso disco", disse-lhe o maestro. "É só você estalar os dedos", respondeu ela. Não deu tempo.
Tom dizia que, na voz de Gal, suas músicas soavam como gostaria que soassem. Experimentaram duetos - como no "Tema de Amor para Gabriela", que abria a novela da televisão. Cantaram juntos, nos Estados Unidos - chegaram a gravar um vídeo, lançado só nos Estados Unidos e no Japão (Gal informa que já está disponível em DVD). Gal foi a voz convidada para colorir o Tributo a Tom Jobim organizado pelo Free Jazz Festival, tributo que teve participação de Herbie Hancock, Ron Carter, Toots Thielemans, Gonzalo Rubalcaba. A outra voz era a de Shirley Horn.
"Eu devia isso ao meu público, a mim, ao Brasil", diz a cantora, que não descarta a hipótese de dar continuidade a um projeto de songbook de Jobim, um quase completo, como os que Ella Fitzgerald fez com Cole Porter, George Gershwin, Irving Berlin e outros mestres da canção. "Pode vir um volume dois, por que não?" - de fato, Gal Costa atingiu um nível que lhe deveria permitir cantar o que bem entendesse. Haverá, claro, quem ache cantar Jobim uma escolha fácil, em termos comerciais. Não há nada de fácil. É o desafio que só uma grande cantora se pode permitir.
Tom Jobim é um dos compositores mais gravados da história do disco. Ao abraçar o projeto, Gal enfrenta o desafio das comparações. Mas é difícil duvidar que o trabalho dela não venha a ser o melhor de todos. A direção do show de Gal é de José Possi Neto. A banda que a acompanha é liderada pelo arranjador, diretor musical e pianista Cristóvão Bastos. Ney - Outro grande pianista é um dos arranjadores do show de Ney Matogrosso: trata-se de Leandro Braga, que será uma das atrações nacionais do próximo Free Jazz. Outros arranjos têm assinatura do saxofonista Zé Nogueira e do guitarrista Ricardo Silveira. Ney assina roteiro, direção, figurino e iluminação do espetáculo. Volta no tempo, para cantar os sucessos desafiadores do modelo andrógino que adotou pioneiramente, época do trio Secos & Molhados - em números como "Vira", "Homem Com H", "Sangue Latino". Vem ao presente com o rap carioca, estilizado, de Pedro Luís (Miséria no Japão) ou para perguntar que cara, afinal, temos nós, brasileiros, com Celso Viáfora (Cara do Brasil). O nome do show, "Olhos de Farol", sai da música composta por Flávio Henrique e Ronaldo Bastos. O espetáculo esteve antes em São Paulo, no início do ano, em temporada curta. Esta também é curta: apenas duas semanas. A crítica, na época, saudou "Olhos de Farol" como o melhor show de Ney dos últimos tempos. Amadurecido, pode estar ainda melhor.
Sorte da cidade que pode oferecer a seu público a opção entre espetáculos do porte dos de Gal Costa e Ney Matogrosso.


