Quando seus folhetins estão no ar, a vida dos autores de tevê se transforma em uma novela à parte. Muitos dedicam de oito a treze horas do dia para desenvolver suas histórias, rotina que inclui os finais de semana. Cada capítulo tem de 25 a 45 páginas e, ao final de uma trama, mais de oito mil páginas podem ter sido escritas. Para tanta labuta a recompensa costuma ser alta. Estima-se que um autor de novela da Globo chegue a faturar 3 milhões de reais por ano quando sua novela está no ar, valor que inclui inserção de merchandising. Mas é uma maratona que faz qualquer atividade corriqueira do dia-a-dia cair no esquecimento. ''Almoço em 15 minutos, só atendo o telefone se for o Dennis Carvalho e às vezes percebo que estou há uma hora e meia desesperado para ir ao banheiro'', relata Antonio Calmon, que escreve ''Três Irmãs''.
Para enfrentar o trabalho árduo, a maioria dos autores conta hoje com colaboradores para desenvolver suas novelas. Cada um estabelece a divisão das tarefas de um jeito, às vezes de acordo com os núcleos ou com as afinidades por determinados temas. ''Eu e a Alessandra Poggi fazemos as escaletas, que são os resumos de todas as cenas de um capítulo. Os outros colaboradores encaminham as histórias que contamos a cada semana'', explica a autora de ''Malhação'' Patrícia Moretzsohn, que discute todos os núcleos com toda a equipe. Método diferente do adotado por Calmon. ''Escrevo todas as cenas de humor e instauro personagens novos. Mas é a Adriana Chevalier quem cuida do núcleo dos surfistas, pois conhece as gírias por ter um filho que pega onda'', justifica o autor da novela das sete da Globo.
Na Record, Cristianne Fridmann chega a sonhar com personagens e histórias de sua ''Chamas da Vida''. ''O pior é quando tenho pesadelos'', brinca a autora. Ela conta com cinco colaboradores e foi mudando o seu método de trabalho durante a novela. Antes dividia a feitura dos núcleos entre todos e fazia a redação final. De uns tempos para cá, escreve todos os capítulos sozinha, enquanto eles dão sugestões e ficam responsáveis pela escaleta. ''Era pouco prazeroso fazer a escaleta e parece que me livrei de um elefante pisando no meu estômago. Encontrei o método de trabalho que me realiza'', exagera Cristianne. Camilo Pelegrini, um de seus colaboradores, diz que não há discussão na hora de desenvolver os rumos da trama. ''A base da história já vem bem planejada e clara por parte da Cristianne. Meu papel como colaborador é dar idéias''.
Mesmo em uma novela com mais ação do que diálogos, caso de ''Mutantes - Caminhos do Coração'', da Record, a carga de trabalho do autor não diminui. ''Muita ação até aumenta o meu trabalho, pois preciso roteirizar as cenas, prever quem está lutando com quem, quem está fazendo o quê'', exemplifica Tiago Santiago, responsável pela trama.
Trabalho por trabalho, Glória Perez prefere escrever suas novelas completamente sozinha, o que é uma exceção atualmente. ''Caminho das Índias'', que começou na última segunda-feira na Globo, estreia com 24 capítulos já prontos. A autora escreve 32 páginas por dia. ''Juro que é mais fácil trabalhar sozinha. Eu me policio. Se quero sair à noite, trabalho de dia, e vice-versa'', resume Glória, cotada como a autora que tem o salário mais alto da emissora, devido às altas audiências de seus folhetins.
A tarefa é árdua, mas todos esses autores já foram colaboradores um dia. E eles não ousam reclamar do prazer que têm atualmente em poder contar as histórias que querem, como bem entendem, para milhares de telespectadores em todo o País. ''Como colaborador eu tinha mais tempo livre e menos responsabilidade. Mas prefiro mil vezes as grandes dificuldades, para ter autonomia sobre os rumos da trama'', compara Tiago Santiago, sem se esquecer que o retorno financeiro também aumenta quando se assina uma novela. Na Record, quanto mais suas novelas sobem na audiência, mais ele ganha. Na Globo, Tiago nunca tinha feito uma novela sozinho.

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