'GAIJIN 2' PODE INVESTIR R$ 2 MI
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
As relações entre o Estado e a produção cultural sempre causaram polêmica. Seja pela quantia repassada aos artistas, seja pela própria iniciativa do Estado em repassar verbas para a cultura. Em Londrina, o mecenato (termo que sintetiza essa relação de auxílio entre o Estado e o meio cultural) se consolidou com a criação da Lei de Incentivo à Cultura, elaborada em 1992 e efetivada em 1994. Por meio de renúncia fiscal, os contribuintes podem investir nos projetos culturais inscritos na lei e aprovados por uma comissão da Secretaria de Cultura. Há também os repasses diretos, caso de festivais tradicionais como o de teatro (Filo) e o de música (FML), que recebem um auxílio financeiro para a realização de sua programação.
Entretanto, no último dia 6, um repasse para a cultura causou polêmica em Londrina. A Câmara Municipal aprovou por 15 votos a 5 o projeto de lei do prefeito Nedson Micheleti (PT) que autoriza a abertura de crédito adicional especial de até R$ 440 mil para a produção do filme ''Gaijin 2'', de Tizuka Yamasaki. O filme, orçado em R$ 7 milhões, já captou R$ 3 milhões e deve ser rodado entre fevereiro e abril de 2002 em Londrina e região.
Naquela sessão na Câmara, a Folha ouviu alguns vereadores a respeito do projeto. A maioria aprovou a iniciativa de Nedson, realçando os benefícios que Londrina terá com a realização de ''Gaijin 2''. O único a criticar foi Renato Araújo (PPB), alegando que a Prefeitura estaria usando verba pública para publicidade pessoal, o que poderia gerar até ações do Ministério Público.
Após a celeuma, a Folha solicitou ao produtor executivo do filme, Flávio Chaves, um balanço de todos os benefícios que Londrina terá com a produção de ''Gaijin 2'' na cidade. A avaliação elaborada pelo produtor aponta investimentos de aproximadamente R$ 2 milhões em Londrina, abrangendo desde o material a ser utilizado na construção da cidade cenográfica, como contas de telefone, aluguel de equipamentos e utensílios e demais despesas (veja box ao lado).
Chaves lembra que outras produções contribuíram e muito com a cidade que lhes deram suporte. Entre os exemplos da recente safra do cinema e da TV brasileira, o produtor destaca o filme ''O Quatrilho'', de Fábio Barreto, rodado no interior do Rio Grande do Sul em 1995; a criação do Instituto Dragão do Mar em Fortaleza, um órgão totalmente voltado à exibição e produção de filmes; e a produção da novela ''Tropicaliente'', exibida pela TV Globo em 1994 e que recebeu do Estado do Ceará na época um montante de aproximadamente 700 mil dólares. ''A gravação da novela na região rende receitas até hoje para o Ceará, ultrapassando o valor que foi investido pelo governo na novela'', observa Chaves.
Fora do Brasil, cidades e países disputam a possibilidade de se tornarem cenário para uma grande produção. Nos Estados Unidos, excetuando-se Nova York e Los Angeles (os principais centros de produção cinematográfica do mundo), muitas prefeituras pequenas oferecem atrativos fiscais e auxílio financeiro para que filmes sejam rodados. A disputa chega até o Canadá, onde os tributos são mais leves e as condições oferecidas pelas prefeituras são bem mais favoráveis que as existentes nos EUA.
Na Europa, a concorrência também é acirrada. Nos anos 60, a megaprodução da Fox, ''Cleópatra'', começou a ser rodada na Inglaterra e se transferiu após alguns meses para a Itália. Detalhe a Inglaterra já havia oferecido isenção de impostos e suporte para a infra-estrutura, mas a Itália ofereceu mais toda a estrutura da Cinecittá, o maior estúdio cinematográfico do mundo. O leitor pode perguntar mais e aí, a Itália ganhou algo com o filme? Bem, não há valores precisos, mas a produção esgotou todo o estoque de cimento existente na Itália e região para reconstituir o auge do império romano.
Mas nem só de louros vivem cidades que ajudaram produções cinematográficas. Alguns produtores do Espírito Santo reclamam que ao produzir ''Fica Comigo'' em 1995, Tizuka Yamasaki teria prometido a consolidação de um pólo cinematográfico e não concretizado a promessa. Grande produções como ''Guerra de Canudos'', de Sérgio Rezende, e ''Central do Brasil'', de Walter Salles, não estimularam o turismo na região em que foram filmados.
Enfim, o investimento em um filme pode se tornar uma faca de dois gumes. No caso de Londrina, a pergunta que fica é: a Prefeitura saberá aproveitar a cidade cenográfica de ''Gaijin 2'' em todo o seu potencial turístico?


