Londrina recebeu calorosamente a equipe técnica e elenco do filme ‘‘Gaijin 2’’ no último domingo. Sob um sol sufocante, a poeira que levantava alto nas ruas da cidade ajudou a reconstituir as décadas de 30 e 40 numa viagem ao passado. Na cidade cenográfica, na Reserva Ecológica Mata dos Godoy, jornalistas de várias partes do Brasil acompanhavam atônitos a enxurrada de informações sobre os desbravadores de várias etnias e entravam nas habitações bastante fiéis às construções originais.
A diretora Tizuka Yamasaki dá início às filmagens no próximo sábado e vai percorrer as cidades de Londrina, Maringá, Cambará, Curitiba, Paranaguá, Foz do Iguaçu, Ibiporã e Guairacá, além de locações no Japão. Para baratear a produção, foi criada na cidade cenográfica uma pequena vila do Japão. Foram usadas madeiras como o cedrilho para a construção das casas. Após a ‘‘dressagem’’ a madeira será revestida com pátina, ficando com o aspecto de peroba. Parte da cidade cenográfica é monocromática. Outra parte das casas de madeira recebem pinturas e todo o acabamento. O local se transformou numa porta de entrada ao passado. A principal locação, a casa da matriarca Titoe, foi erguida à sombra de um pomar e reproduz uma casa no estilo japonês e estará presente em toda a saga.
A história do filme se desenrola a partir de Titoe no início do século e atravessa gerações de seus descendentes. Foram elencados fatos importantes para pontuar o filme, como a Segunda Guerra, a geada de 1975, o confisco da era Collor, o terremoto de Kobe e o movimento dekassegui. A partitura de idiomas terá o japonês e o português como línguas principais, agregando os também o espanhol e o alemão.
Praticamente, garantiu a diretora, os R$ 9 milhões do orçamento foram captados. Essa é a primeira grande produção cinematográfica na região, com elenco de estrelas internacionais. O principal par romântico do filme chegou assustado, tentando se localizar e se conhecer. A atriz nipo-americana Tomlyn Tomita filma pela primeira vez fora dos Estados Unidos, enquanto que no currículo do cubano Jorge Perugorría ‘‘Gaijin 2’’ é o terceiro filme brasileiro. Ele filmou ‘‘Navalha na Carne’’, de Neville de Almeida, e ‘‘Estorvo’’, de Ruy Guerra. A atriz americana Nobu Mc Carthy chegou ontem em Londrina. Além de Kyoko Tsukamoto protagonista de ‘‘Gaijin - Caminhos da Liberdade’’, desembarcaram na cidade três atores japoneses. Outra parte dos descendentes vieram de São Paulo. No total, devem participar do filme 2.600 figurantes. De Londrina, os destaques são Domingos Pellegrini, Poka Markes, Paulo Castro e Apolo Theodoro.
A atriz Mariana Ximenes, muito assediada, interpretará a jovem Veronica, uma alemã que morre no parto do primeiro filho. Participa do filme o alemão Edgar Osterroht, último funcionário vivo da Cia. de Terras Norte do Paraná, que prestou consultoria à direção de arte do filme e ensina alemão à Mariana Ximenes. Zezé Polessa integra o núcleo espanhol. Enquanto conhecia a locação, protegida por um chapéu de palha, em meio à tantos japoneses e descendentes destacou para os atores brasileiros: ‘‘vamos ficar todos juntos porque somos muito poucos aqui’’.
Por se tratar de uma saga familiar, vários atores fazem o mesmo personagem em etapas distintas. ‘‘Agora, com o elenco no cenário, comecei a ver o filme. Quero mostrar ao mundo que é possível ser feliz sendo diferente’’, destacou a diretora. Os olhares foram dirigidos para a atriz Tamlyn Tomita, que trabalhou com Allan Parker em ‘‘Benvindos ao Paraíso’’ e numa produção de Francis Ford Coppola ‘‘Clube da Felicidade e da Sorte’’.
Mas quem realmente ganhou os corações e câmeras do evento foi a feirante aposentada Aya Ono, 73 anos, de Londrina. Os repórteres dos principais jornais e revistas do País faziam fila para ouvir a história real da imigrante japonesa que trabalhou na lavoura, enfrentou epidemias, cuidou de família numerosa, trabalhou até os 70 anos e celebra a alegria de estar viva.
Leia a seguir, os principais trechos das entrevistas com alguns dos atores
integrantes de ‘‘Gaijin 2’’.

Tamlyn Tomita (Maria)
‘‘Esse cenário é maravilhoso, vamos ter que trabalhar muito aqui. Minha personagem é brasileira, mas não falo muito português. Para fazer o filme, preciso praticar. Estou aprendendo, mas é difícil. A pronúncia nasal é diferente do espanhol. A língua portuguesa é muito bonita. Não leio ainda o português, mas me concentro para pensar. Em 1986 e 87 estive no Brasil, no Rio de Janeiro e São Paulo.
Não tenho expectativas sobre esse filme. Nunca tenho expectativas quando faço filmes. Dou o melhor de mim. Essa é a melhor maneira, entrar em sintonia com as pessoas. Há mais ou menos um ano Tyzuka Yamasaki me convidou para participar do filme. Estou prestando atenção nos brasileiros, que se expressam muito com as mãos e tudo o que falam é muito emocional. O japonês não tem essa variação de tonalidade quando fala. O brasileiro é mais autêntico.’’

Luis Mello (Ramon Salinas)
‘‘Há dois anos não faço cinema. É difícil coordenar cinema, o Ateliê de Criação Teatral, em Curitiba, e televisão. Os filmes no Brasil não têm uma estrutura segura, não se sabe quando vai ser captado. Então, você vai fazer o filme que se encaixa com sua agenda. Em ‘Gaijin 2’ participo de cenas difíceis, com efeitos especiais. Meu personagem é fundamental para o filme, é extremamente latino e não suporta o baque da geada de 1975. Esse filme me remete à minha infância. Não resgata fatos históricos, mas fala sobre o homem. O Paraná tem histórias maravilhosas, consome muito e devolve pouco. Depois desse filme, pretendo me afastar do eixo Rio-São Paulo para me realimentar na área teatral’’.




Aya Ono (batyan senhora)
‘‘Minha filha me falou pra fazer inscrição e fui no último dia. Aí genro me trouxe para fazer teste. Fiquei surpresa quando dona Tizuka me chamou. Dona Tizuka mandou rezar e rezei. Fizeram pequeno teste com maquiagem. E agora é como um sonho. Todas as pessoas são boas para mim. Nunca sonhei em fazer filme. Estou com vergonha, porque eu no meio dos artistas, eu ‘bacataré’ (boba). Tenho bastante fala, metade em brasileiro e metade em japonês. Eu nasci em Yamagata, no Japão, depois vim para interior de São Paulo. A fazenda era muito ruim, não tinha nada de verdura. Só doente. Minha mãe chorava todo dia. Morria muita gente de cãibra de sangue, por causa da ameba. Peguei malária, fiquei uma semana de febre. Conheci meu marido no dia do casamento e vim para Londrina. Trabalhei como feirante durante 50 anos. Fui verdureira com carroça na Gleba Palhano e moro na rua Pedro Marcos Prado’’.

Jorge Perugorría (Gabriel)
‘‘Vamos ter muito trabalho nessa ‘cidade’. O local me impressionou muito. No filme vou tentar falar português, mas vai ter sotaque. Assisti ao ‘Gaijin 1’ e me identifiquei porque venho de um povo imigrante. A sensibilidade me tocou e, de certa forma, o filme conta uma parte da minha história. Meu povo é de imigrantes. Brasil e Cuba são muito parecidos, o sincretismo cultural e religioso são parecidos. Meu personagem volta do Japão e temos um final reconciliatório.
O cinema brasileiro e latino americano em geral têm um espírito mais libertário, por ser um cinema mais criativo, do que outras filmografias que respondem ao conceito de indústria. No Brasil, tenho muito orgulho de ter filmado ‘‘Estorvo’’ com Ruy Guerra, principalmente por causa da linguagem. Acho Ruy Guerra um diretor muito jovem.’’

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