São Paulo, 23 (AE) - Rock é música ou é atitude? Essa querela é quase tão velha quanto o rock. Os que acreditam tratar-se o rock de atitude identificam os sinais da transgressão na guitarra estraçalhada de Jimi Hendrix, no incêndio existencial de Jim Morrison, na autoflagelação de Kurt Cobain, na incompatibilidade de Patti Smith. O segundo grupo de crentes - o que acredita tratar-se de música - dedica-se a garimpar sinais de uma dialética artística nessa expressão popular, da ousadia sinfônica de Frank Zappa à polifonia eletrônica do Kraftwerk.
O diretor mineiro Gabriel Villela, celebrado pela montagem de "A Rua da Amargura", também colocou sua colher nessa discussão. Em "Alma de Todos os Tempos", em cartaz no Teatro Ruth Escobar, ele busca encenar uma ópera-rock que abrace as contradições e os flashes comportamentais do gênero. Estão em sua ópera, lado a lado, como um puzzle de peças incompletas, Raul Seixas, The Beatles, The Doors.
Villela e o co-autor da peça, Eriberto Leão, deixam claro sua opção: pertencem ao primeiro grupo, daqueles que acreditam que rock é atitude. Aí reside especificamente o problema: tudo se resume a pôr em cena o clichê, o gesto estandartizado do guitarrista empunhando a guitarra como uma metralhadora, a fumaça mistificadora, o solo "furioso" de bateria, o berro "insano" do vocalista. Atitude não se compra no supermercado, mas nem todo mundo saca.
Na visão de fim de milênio de Gabriel Villela, o rock seria a linguagem mitológica de nosso tempo. Seus astros seriam os deuses contemporâneos. Sua linguagem seria a palavra sagrada dos nossos dias. A música-símbolo dessa opção é "Gita", de Raul Seixas, que abre o espetáculo. "Eu sou o início, o fim e o meio."
Utopia - Mesmo se desconsiderando que a escolha de Villela - a ginasial banda Estranhos - seja profundamente equivocada, ainda assim é inevitável assinalar que seu tour de force roqueiro parece um tanto quanto amador no palco. Ele celebra a Era de Aquarius como utopia, mas esquece as contradições do período. Esquece de Sharon Tate assassinada em sua mansão por um bando de hippies barbudos. Esquece dos Hells Angels esfaqueando negros nos intervalos dos shows dos Rolling Stones. Esquece de Lou Reed levando eletrochoques numa clínica de doidos de Manhattan.
Enfim, esquece-se do Mal, que caminha ao lado do Bem, como a sombra costurada de Peter Pan. Seu Jesus Cristo Superstar poser (Eriberto Leão) se deita numa plataforma fumegante, entre ruínas de um Stonehenge deslocado, e mastiga (sem saber ao certo seu significado) palavras de Goethe, Shakespeare e Fernando Pessoa.
Mesmo a pretensa "atualidade" da ópera-rock de Villela é mal informada. Face ao assalto sonoro de bandas da atualidade, como os piromaníacos do Rammstein, o dantesco Orgy ou o indecente Marilyn Manson, seu rame-rame soa antigo, defasado.
E até o discurso "punk" contra o sistema, que poderia parecer legítimo (o ator principal, em dado momento, descamba a ler uma carta ao sr. presidente), sai fake, embebido em uma indignação artificial. Aí se vê que há uma diferença abissal entre Sid Vicious bradando contra a rainha da Inglaterra, magrelo e chapado, e os meninos de classe média de Villela fazendo cara feia no palco. Rock é história, é atitude e é música. Mas não tem manual de instruções. Alma de Todos os Tempos. Musical. De Eriberto Leão e Gabriel Villela. Direção de Gabriel Villela. Duração: 1h30. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 20,00 (quinta); R$ 25,00 (sexta e domingo); R$ 30,00 (sábado). Teatro Ruth Escobar - Sala Dina Sfat. Rua dos Ingleses, 209, tel. 289-2358 São Paulo.

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