Gabriel Villela assume direção artística do TBC
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2000
Por Beth Népoli 
São Paulo, 22 (AE) - Gabriel Villela acaba de assumir a direção artística do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). E não teve tempo de fazer muitos planos porque viajou para Londres em seguida, onde está agora, na companhia de Eduardo Moreira, diretor do grupo mineiro Galpão, para acertar detalhes da temporada no Globe Theater da peça "Romeu e Julieta", dirigida por Villela com o grupo mineiro. No fim da semana, Villela está de volta ao Brasil e, antes de assumir de vez a direção do TBC, realiza os ensaios finais do musical "Ripley", de Max Miller, com Raul Gazolla no elenco, que estréia no dia 25 de março no 9.º Festival de Teatro de Curitiba.
A princípio, Villela havia aceitado o convite do novo proprietário do TBC, o empresário Marcos Tidemann, para dirigir uma companhia permanente de repertório musical numa das salas do teatro. Mas a conversa inicial ganhou novos rumos e, no fim da semana passada, Villela aceitou assumir a função de diretor artístico do histórico teatro fundado pelo empresário Franco Zampari, em 1948. Permanência - "Estamos conversando, eu e o Marcos Tidemann, desde outubro, quando dirigi o musical "Alma de Todos os Tempos", que estreou no TBC", disse Villela em entrevista à reportagem, antes de partir para Londres. Dono de uma rede de postos de gasolina, a pedido de sua filha, a atriz Cezu Duarte, Tidemann arrendou o teatro tombado pelo Patrimônio Histórico por cinco anos e investiu R$ 4,4 milhões na reforma total do espaço e restauração da fachada.
O grupo Parlapatões, Patifes & Paspalhões ocupa uma das salas do TBC em caráter permanente e, no momento, o dramaturgo Léo Lama mostra seu repertório em outra dessas salas. "Não pretendo mudar nada na programação planejada antes de mim", diz Villela. "O que me atraiu na proposta de Tidemann foi o seu interesse em transformar o TBC num centro permanente de discussão do teatro, da arte e da cultura".
Esse desejo já havia orientado o investimento em companhias permanentes como no caso dos Parlapatões. Porém, mais que isso, o empresário resolveu fundar uma companhia dentro do TBC, quase uma volta às origens, já que o teatro nasceu como sede da companhia criada e mantida por Zampari. "Mas o tempos são outros e nosso investimento é bem mais modesto", afirma Tidemann.
"Não chamamos Villela para organizar a programação do teatro e sim para montar um projeto artístico para o TBC". O empresário afirma não estar preocupado com resultados imediatos. "Já falei com Villela que estamos investindo a longo prazo e só iremos começar a colher os frutos no ano 2001". Cinco jovens atores já estão contratados para integrar o núcleo inicial da Companhia de Repertório Musical. Além de Cezu, integram o núcleo inicial Fábio de Melo, Tânia Paes, Vicente Russo e Drica Santini. "Todos têm sólida formação musical, estudaram em conservatório e juntos formam um grupo musicalmente muito expressivo e talentoso", garante Villela. Pólo cultural - Contratado inicialmente apenas para dirigir a companhia, Villela tem agora em mãos uma tarefa de dimensão bem maior. "E estou muito feliz em assumir essa responsabilidade", garante. "Em abril, quero anunciar quatro projetos extrapalco, todos inspirados nessa idéia de transformar o TBC num pólo cultural, um centro permanente de discussão artística", antecipa.
O novo cargo não invalidou o projeto inicial. "Já estamos planejando a montagem de um musical baseado na vida de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, e queremos realizar pelo menos três musicais, se possível ainda este ano, para manter em repertório", diz Villela. E para dar conta de tudo, Villela vem contando com a preciosa assessoria da crítica teatral e pesquisadora Maria Lúcia Pereira. "É uma grande sorte poder contar com alguém como ela".
O convite para a direção do TBC não foi o único a deixar Villela exultante. Também neste início de ano, ele recebeu a visita de Grahan Shessield, diretor artístico do Barbican Theater, um dos teatros da Royal Shakespeare Company que o procurou com o diretor inglês Paul Heritage. O motivo era o convite para a realização de uma temporada, em julho, da versão de "Romeu e Julieta" dirigida por Gabriel Villela - o espetáculo mais premiado na carreira do grupo mineiro Galpão -, no Globe Theater.
"Fiquei doido pela importância do convite, afinal é a primeira vez que uma companhia brasileira faz temporada no Globe Theater". Para quem não conhece, na belíssima adaptação para a rua da peça de Shakespeare dirigida por Villela em linguagem circense, os atores caminham em pernas-de-pau, o "palco" móvel é uma veraneio e a poesia do bardo ganhou um proseado que se aproxima de Guimarães Rosa. Sagrado - Villela e Moreira, ator e diretor do Galpão, viajaram para a Inglaterra para dialogar com os administradores do teatro sobre a utilização do local. Ainda que a arquitetura elizabetana
a mesma utilizada por Shakespeare, tenha tudo a ver com o espetáculo de Villela, criado para ser exibido ao ar livre. "É preciso pensar cada passo do espetáculo, porque aquele espaço é sagrado e não dá para pregar um prego fora do lugar", comenta Villela.
A linguagem circense também estará presente na peça "Ripley", de Max Miller, que estréia no Festival de Curitiba, porém desta vez mesclada ao que há de mais avançado em termos de tecnologia de palco. "Estamos utilizando um novo sistema de som - LCS - que permite explorar polifonias em cena, além de recursos multimídia", antecipa Villela.
"Ripley" marca a estréia no palco do jovem dramaturgo gaúcho Miller e conta a história de um jogador de futebol que aos 50 anos vive uma forte crise existencial (Raul Gazolla). Numa visita a um estádio de futebol, como num passe de mágica, ele encontra a si mesmo aos 20 anos (Cláudio Fontana). A partir daí, tem início uma sequência de oito cenas nas quais ele faz um balanço de sua vida.
"Ele vai reencontrar, por exemplo, com cinco mulheres que passaram por sua vida, cinco gols contra, uma vez que ele jamais soube lidar com o afeto", afirma Villela. Apesar do tema
o humor estará presente no palco, como na cena na qual uma das namoradas do jogador vai ao Maracanã contra a vontade da mãe, que resolve segui-la.
Ao seguir a filha a quem acusa de ter problemas sexuais, a mãe vai parar no vestiário dos jogadores e só então descobre as próprias limitações em relação ao assunto. "Nessa cena, muito engraçada, a gag quase circense se mistura à linguagem virtual", informa Villela. No fundo do palco, um telão de proporções gigantescas praticamente contracena com os oito atores do elenco, entre eles Vera Zimmermann e Matheus Carriere.
Nada menos do que 20 canções integram o musical "Ripley", a maioria é de composições inéditas criadas em parceria por Miller (letra) e Milton Magalhães (música). Além do humor da metáfora com o futebol, o musical fala sobre a possibilidade de conciliação com a maturidade.


