Gabriel pensa baixo
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de maio de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Após uma epidemia de mofo em sua residência, o cantor de rap carioca Gabriel o Pensador resolveu fazer uma faxina em suas gavetas. Entre os papéis encontrou muitos escritos poemas, redações escolares, textos e depoimentos e desabafos. Colocou tudo na peneira e resolveu reunir o material em livro.
O resultado está Diário Noturno, que está sendo lançado hoje pela Editora Objetiva na 10ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Na peneirada para organizar o livro, Gabriel escolheu os textos mais significativos. Em suas palavras, o rigor não foi determinante: Deixei muito lixo de fora, é claro, que seu olho não é penico, mas tentei ser o menos rigoroso possível, principalmente em relação à forma, considerando que alguns textos tinham sido escritos havia quase dez anos e o autor era um moleque meio maluco que nem imaginava que um dia um maluco meio moleque iria meter a mão nas suas intimidades e mostrar para todo mundo.
Diário Noturno, primeira incursão literária de Gabriel o Pensador, é constituído basicamente de poemas. Possuem as mesmas características das letras de suas músicas, a diferença está na intimidade exposta de maneira mais evidente. Os poucos textos em prosa que integram o volume assumem um valor mais significativo, pelo caráter despretensioso e confessional.
Se analisado em termos literários, Diário Noturno é uma obra fraca e vulnerável. No campo estético remete à poesia como expressão individual, como rebeldia contra a realidade, como desabafo adolescente frente a um mundo desequilibrado. Em alguns aspectos, lembra a poesia politicamente engajada que floresceu na década de 70 e foi sepultada na década seguinte. Em outros aspectos remete à necessidade juvenil em expor a busca de um mundo melhor, mesmo representando uma dissimulada sede de auto-afirmação.
A grande maioria dos poemas que integra o livro de Gabriel são rimados e de abordagem superficial. Soluções extremamente simples que produzem bons resultados quando transformadas em poesia oral. Mas, em se tratando de poesia escrita, não resistem a uma análise mais profunda e tendem ao naufrágio estético. Por outro lado é inegável o poder de comunicação que os versos que tocam os admiradores da cultura Hip-hop. A simplicidade, colada ao sentido extremamente objetivo, não exige nenhuma dose de abstração ou subjetividade falando de coisas sempre concretas.
Nesse sentido, Diário Noturno se revela muito mais como uma obra para fãs de Gabriel Pensador do que uma obra literária consistente propriamente dita. Em um dos textos do livro o próprio Gabriel admite que sua relação com o ato de escrever sempre foi simples e direta: Eu só queria desabafar, me expressar. Assim, os altos e baixos dividem o mesmo espaço no papel.
Embora o volume reproduza antigos textos do artista como uma redação escolar escrita aos doze anos de idade a maioria deles foi criada no período de 2000 e 2001. Muito bem editado, com seções bem definidas, o livro oferece várias facetas de Gabriel, mas o maior peso está sobre as questões sociais do Brasil atual. Nesse ponto, trabalha muito mais como cronista da realidade do país do que como poeta.
A pergunta que se instala é por que um compositor que, de certa forma, já diz tudo que pretende através das letras de suas músicas, deseja lançar um livro? O próprio Gabriel, no prefácio de Diário Noturno, oferece uma reposta, convincente ou não: Não pensem que é algum tipo de exibicionismo barato lançar meu adubo no ventilador. No fundo eu sou mesmo é tímido, senão não gostaria tanto de escrever. Aproveitei o embalo para voltar a essa velha mania de contar pro papel registros da minha vida e da minha fantasia, não apenas em forma de música. Foi como reencontrar e recomeçar uma velha amizade. E dessa recaída é que acabou nascendo grande parte das páginas que se abraçaram no livro que você está lendo agora, produto final de uma experiência que não é transgênica mas mistura diversos elementos, momento e lamentos, e quem sabe pode até gerar bons frutos...
Diário Noturno - De Gabriel o Pensador, Editora Objetiva, 168 páginas, R$ 19,90.


