‘‘Alto Risco’’ perde a oportunidade de ir fundo na discussão do papel da imprensa na denúncia de crimes

Ano passado, pesquisadores do site especializado Internet Movie Data Base (Imdb) selecionaram alguns títulos que eles consideram os melhores filmes sobre jornalismo: ‘‘Correspondente Estrangeiro’’ (Hitchcock, 1940), ‘‘A Primeira Página’’ (Billy Wilder, 1974), ‘‘Todos os Homens do Presidente’’ (Alan Pakula,1981), ‘‘Rede de Intrigas’’ (Sidney Lumet, 1976), ‘‘O Homem com as Lentes Mortais’’ ( Richard Brooks, 1981), ‘‘Nos Bastidores da Notícia’’ (James L. Brooks, 1987), ‘‘O Jornal’’ (Ron Howard, 1994) e ‘‘O Informante’’ (Michael Mann, 1999). Incompleta, obviamente – ausentes pelo menos duas jóias, o imortal ‘‘Cidadão Kane’’ de Welles (40) e ‘‘A Montanha dos Sete Abutres’’, outro Wilder essencial (51). Mas com certeza uma lista que jamais incluirá ‘‘Alto Risco’’ (veja a programação de cinema na página 2), um equívoco somente aceitável em nome da liberdade que o cinema tem de fazer filmes bons ou ruins, e o espectador de aceitá-los ou não. Mais ou menos como funciona a liberdade de imprensa.
‘‘Alto Risco’’ é vendido mundo afora pela Fox como ‘‘a história real que mudou uma nação’’. Mas na verdade é sobre fatos que pouca gente irá se lembrar no futuro, fatos não historicamente significantes. Poderiam ser argumento para uma tragédia bem fundamentada, mas o filme em momento algum chega ao ponto desejado, e acaba sendo apenas uma precária investigação sobre uma mulher somente vista superficialmente. Ao final ficamos sabendo o básico sobre a irlandesa Veronica Guerin, e não temos o que lamentar.
Com certeza o personagem merecia coisa melhor. Guerin foi jornalista em Dublin, uma combatente profissional determinada a denunciar os chefões do crime organizado durante a última década. Ela entrevistou muitas pessoas, quase sempre à revelia da polícia, obtendo dados essenciais para suas denúncias, inclusive nomes, locais, datas, fatos. O resultado foi sua execução, em 1996. No filme, Guerin é rebatizada como Sinead Hamilton e aparece com os traços de Joan Allen, em valente esforço para nos convencer da tenacidade de seu personagem. Mas os bons préstimos da atriz se embaralham num amontoado de clichês da espécie ‘‘filme investigativo’’, incluídos aqui ações e diálogos públicos e domésticos.
‘‘Erin Brokovich’’, outra ‘‘história real’’, pode ser lembrada como exemplo de mulher que arrisca a vida ao expor acontecimentos criminosos. Apesar do final feliz em moldes hollywoodianos, Steven Soderbergh realizou um filme com sentido de realidade e com sobriedade. ‘‘Alto Risco’’, por sua vez, não passa de um muito manuaseado compêndio de situações criminais evidentemente extraídas de artigos de jornais. O diretor John Mackenzie, estimulante provocador que em 1980 criou um novo estilo ao misturar mafiosos e terroristas (leia-se IRA) no thriller ‘‘The Long Good Friday’’, parece perdido num mar de futilidade. (C.E.L.J.)

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