Nelson Sato
De Londrina
Livro reúne artigos sobre o esporte das multidões assinados por intelectuais acadêmicos, colunistas, cineastas, ex-jogadores e até chefes de torcida
Uma partida de futebol não é boa apenas para se ver, mas também para pensar. Quem duvidar, que se disponha a consultar as páginas de Futebol – Espetáculo do Século, uma volumosa coletânea de textos sobre o esporte das multidões que acaba de chegar às livrarias.
O livro reforça o potencial editorial do assunto, estimulado a partir da última Copa com uma série de lançamentos. Espetáculo do Século chega ao público pela editora Musa, a mesma que publicou no ano passado um título sobre a rebeldia no futebol brasileiro focalizando as trajetórias dos jogadores Afonsinho e Edmundo.
O novo título traz 26 artigos apresentados no seminário homônimo realizado no começo deste mês na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), numa promoção do Núcleo de Estudos do Cotidiano e de Cultura Urbana e do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais. Entre os autores figuram colunistas esportivos, cineastas, ex-jogadores, escritores, chefes de torcida e um time de acadêmicos que inclui antropólogos, sociólogos e especialistas em Comunicação e Educação Física.
O futebol é tratado sob vários ângulos, com cada capítulo dedicado a um tema. A rapidez da publicação impressiona, em vista da lentidão com que debates acadêmicos são transcritos e reunidos sob lombadas. Fosse na França, o lançamento talvez passasse despercebido pelos leitores, dada a quantidade absurda de títulos sobre o assunto despejada no mercado.
O país de Zidane não é só o atual campeão do mundo dentro das quatro linhas, mas ostenta também o título no campo da teoria sobre a bola. No Brasil, porém, a mais febril das paixões populares só ganhou prestígio intelectual recentemente. É o que conta no livro o cineasta Ugo Giorgetti, diretor do filme ‘‘Boleiros’’ (que será exibido no próximo domingo, às 23 horas, pela TV Cultura), lembrando a época em que o futebol era subestimado pelos pensadores e rejeitado como ‘‘‘ópio do povo’’ e ‘‘fator de alienação’’.
Mas o atual interesse, segundo ele, talvez tenha vindo tarde demais. O cineasta acha que a onda de modernização em curso, que está transformando os clubes em empresas, poderá abolir tudo o que sempre fez a alegria do povo nas arquibancadas: a paixão, a irracionalidade, o imprevisível, o imponderável e o inesperado. Essas características estariam em xeque agora sob a mira dos novos dirigentes do futebol.
Giorgetti é veemente: ‘‘Acostumados a prever tudo no monótono procedimento da feitura de seus produtos, eles querem a mesma pasmaceira para as tardes de domingo: jogos sem incidentes, com a torcida comportando-se de maneira civilizada, com juízes aparelhados para evitar erros, estádios talvez cobertos, para evitar o incômodo da chuva e do frio, ou mesmo vazios, já que o que interessa são os espectadores do jogo que chega pela televisão junto com os comerciais.’’
O jornalista Juca Kfouri, por sua vez, vai na direção contrária. Defende um modelo de gestão mais profissional das atividades futebolísticas e aposta na parceria entre os clubes e o capital privado estrangeiro. Lamenta, no entanto, a forma afoita como esse processo estaria sendo conduzido no País. ‘‘O futebol brasileiro está se vendendo por muito pouco, está em liquidação’’, assinala ele num trecho de seu artigo.
‘‘A modernização está nas mãos da velha e carcomida cartolagem que levou os clubes à penúria em que se encontram’’, sublinha mais adiante. Não menos polêmico, o tema das torcidas organizadas também se faz presente no volume, recebendo uma abordagem afiada da antropóloga Elisabeth Murilho Silva, para quem a condenação dos grupos de torcedores uniformizados como os únicos responsáveis pela violência nos estádios é infundada.
‘‘A violência é anterior ao aparecimento das torcidas organizadas’’, diz ela, depois de citar vários episódios vergonhosos ocorridos ao longo da história, inclusive no princípio do século quando o futebol era praticado apenas pela elite branca e endinheirada. Para a autora, a extinção desse tipo de agremiação complicará ainda mais o trabalho de identificação dos verdadeiros vândalos dos estádios, já que todas as organizações de torcidas dispõem de fichas – inclusive fotográficas – dos integrantes, o que facilitaria qualquer investigação.
‘‘A grande dificuldade que as autoridades inglesas têm com a atividade dos hooligans no futebol é justamente pelo seu anonimato, é impossível saber quem ele é até que cause tumultos e, após isso, não há fichas identificadoras para investigar’’, argumenta a antropológa. Sem o tempero da atual controvérsia, os torcedores foram imortalizados em várias crônicas publicadas entre os anos 50 e 70 pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues.
São essas crônicas que a socióloga Fátima Martin Rodrigues Ferreira Antunes revisita e analisa em Espetáculo do Século. Nelson, escreve ela, ‘‘acreditava que a vitória e a derrota traduziam a alma de um povo. Por isso, quando se quisesse conhecê-la a fundo, a simples observação das reações dos torcedores num jogo poderia trazer revelações valiosas’’.
Para o autor de ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’, o futebol era uma miniatura dramatizada da vida: todas as paixões, misérias e grandezas do ser humano continuavam a pulsar quando este calçava chuteiras e entrava em campo. ‘‘A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana’’, anotou certa vez. Com quase 300 páginas, o livro discute ainda o mito do herói, a várzea como celeiro de craques, os atletas de Cristo e as conexões do futebol com a arte, a democracia e as crenças populares.

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