Futebol antropológico
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segunda-feira, 22 de junho de 1998
Tote Nunes Agência Estado 
De onde vem o talento do jogador brasileiro? Por que, em condições tão pouco favoráveis, o País produz tantos craques? Em busca de respostas a essas perguntas o fotógrafo paulistano Ed Viggiani saiu em busca de uma radiografia do futebol no Brasil. Optou por refletir sobre o futebol amador, o contraponto do mercantilismo da Seleção de Zagallo. Num trabalho quase antropológico, quis registar aquele futebol praticado na várzea; nos campos de terra, por garotos nas ruas de cidades grandes e de comunidades rurais. O trabalho de mais de dois anos de pesquisa resultou no livro Brasil Bom de Bola, lançado anteontem em Paris, como um dos eventos paralelos da exposição É Tempo de Brasil, que acontece até o dia 28 no Carrossel do Louvre. Em edição trilíngue - inglês, francês e português - o livro traz fotos de 11 fotógrafos, acompanhadas de textos de 11 artistas, escritores, cronistas, ou de gente que apenas gosta muito de futebol. Lançado em março em São Paulo e em abril no Rio pela editora independente Tempo de Imagem, de Fortaleza, o livro aproveita o clima de Copa do Mundo e tenta agora uma carreira na Europa.
Num tratamento gráfico de alta qualidade, o trabalho traz textos de Luis Fernando Veríssimo, do compositor Aldir Blanc, do ex-jogador Afonsinho, da cantora Rita Lee, do poeta nordestino Patativa do Assaré, de Ariano Suassuna, do escritor Marcelo Rubens Paiva, do historiador Joel Rufino dos Santos, do cineasta Ugo Giorgetti, do poeta e escritor Manoel de Barros e de Sergio de Souza. Os textos foram ordenados por Thais Costa e Zero Cintra.
No time das fotos há duas mulheres: Elza Lima e Marlene Bérgamo. Além delas, há trabalhos de Antônio Gaudério, Celso Oliveira, Tiago Santana, Vidal Cavalcanti, Flávio Canalonga, Luis Humberto, Walter Firmo, Luis Santos e do próprio Ed Viaggiani, que fez coordenação dos ensaios fotográficos.
Viaggiani conta que na medida do possível tentou harmonizar fotógrafo e autor do texto. Desta forma, por exemplo, os gaúchos Veríssimo e Gaudério, formaram uma dupla. Os pernambucanos Ariano Suassuna e Luis Santos fizeram outra. Patativa do Assaré e Thiago Santana uma terceira e assim por diante. Quando não foi possível identificar a referência territorial, recorria-se a possíveis áreas de interesse comum da dupla. Eram 11 fotógrafos e 11 escritores, mas não era jogo contra. Os dois times jogavam a favor do futebol, explica Ed Viaggiani. Uma das nossas maiores preocupações foi chamar para escrever gente que não tivesse relação direta com o futebol. Queríamos mesmo que fossem amadores, afinal, o livro era sobre futebol amador. Coisa de peladeiro, explicou o fotógrafo.
Joel Rufino dos Santos disse que não sentiu nenhuma dificuldade em escrever um texto sobre futebol. Além de trabalhos já publicados sobre o assunto, ele conta que foi movido pela paixão que nutre pelo esporte. Botafoguense doente, ele diz que tentou captar o que havia de mais interessante do olhar do fotógrafo e transformar a impressão em um texto. Não sei se consegui, mas tentei, afirmou o historiador que entre outros trabalhos publicou, no final dos anos 80, o livro História. Eu não sei o que é que estou fazendo no meio de tanta fera. Tenho certeza que levei um drible, mas tentei não fazer feio, explicou o ex-jogador Afonsinho, uma espécie de referência entre os atletas profissionais de futebol pois foi o primeiro a brigar pelo fim da chamada Lei do Passe á- a legislação que prende o atleta ao clube.


