O soul e o funk voltam a pulsar na terrinha. Na década de 70, a fusão desses ritmos com o suingue tropical rendeu um belo caldo apontando novos caminhos para a música pop brasileira.
Num esboço de genealogia, uns e outros já atribuíram o pioneirismo da vertente a Tim Maia, que teria retornado ao país em 1964 totalmente influenciado pelo que viu e ouviu durante sua temporada de seis anos em Nova York.
Há quem lembre da veia black de Roberto Carlos, que incluiu a música ‘‘Não Vou Ficar’’, de Tim, em seu filme ‘‘O Diamante Côr-de-Rosa’’. Erasmo Carlos, o velho parceiro, também não passou impune aos grooves da música negra norte-americana explicitando a conversão no álbum ‘‘Carlos, Erasmo’’ onde é acompanhado pelos Mutantes.
Na TV, Wilson Simonal comandava o programa ‘‘Show Em Si-Monal’’ aproveitando o prestígio para lançar o compacto ‘‘Tributo a Martin Luther King’’. Foi só ao longo dos anos 70, porém, que o balanço black se estabeleceu com vigor inspirando inclusive a criação de um movimento no Rio de Janeiro.
Batizado de ‘‘Black Rio’’, o movimento tinha à frente artistas como Cassiano, Dom Salvador e Gerson King Combo. No ano passado, todos eles foram homenageados com pompa na Câmara Municipal da Cidade Maravilhosa. Nos bons tempos, discos calcados no estilo começaram a sair dos fornos sem parar.
Tim Maia estreou com uma obra-prima emplacando nas rádios canções impagáveis como ‘‘Primavera’’ e ‘‘Azul da Cor do Mar’’. Jorge Ben lançou o não menos fundamental ‘‘A Tábua de Esmeraldas’’. A Furacão 2000 organizou seu primeiro baile. A essa altura do campeonato, as festas nos subúrbios lançavam modas e DJs como Big Boy congestionavam as pistas ao tocar clássicos de James Brown, o papa do funk.
Nas paradas, a negritude pop brazuca começava a ocupar os primeiros postos. Gerson King Combo emplacou ‘‘Mandamento Black’’, ‘‘Jingle Black’’, ‘‘God Save the King’’ e ‘‘O Rei Morreu’’. Extravagante, jamais saía de casa sem sua capa e chapéu peludos, além do séquito de doze jovens negros que o acompanhava em todas as aparições públicas.
Lady Zu, a rainha das pistas, chegou a vender 1 milhão de cópias do álbum ‘‘A Noite Vai Chegar’’. Estourou também com ‘‘Hora de União’’. Cassiano, parceiro de Tim Maia, explodiu com ‘‘A Lua e Eu’’. A música entrou na trilha sonora da novela ‘‘O Grito’’. Hyldon, que formou a tríade mais popular da soul music nacional com Tim e Cassiano, virou ídolo popular depois de fazer o país cantar os hits ‘‘Na Rua, na Chuva, na Fazenda’’ e ‘‘As Dores do Mundo’’.
Carlos Dafé, um dos precursores da musicalidade black em São Paulo (apesar de ser carioca), também mandou seu recado com o sucesso ‘‘Pra Que Vou Recordar O Que Chorei’’. Paulo Diniz, outro grande voz do soul verde-amarelo, embolsou uma boa grana com a vendagem do compacto ‘‘Quero Voltar para a Bahia’’, uma homenagem a Caetano Veloso, à época exilado em Londres.
A Banda Black Rio fundiu jazz, funk e samba legando alguns tesouros como ‘‘Maria-Fumaça’’, ‘‘Saci-Perer꒒ e ‘‘Melô do Figueiredo’’. Tony Tornado foi outro que conquistou um vasto público cantando as músicas ‘‘Br-3’’ e ‘‘Podes Crer, Amizade’’. A exemplo do Rio, os representantes paulistanos do gênero também tentaram articular um movimento.
Miguel de Deus, Mita, Roberto Sax e a própria Lady Zu foram alguns dos artistas que lançaram discos quase ao mesmo tempo no período. O apelo popular da black music brasileira era tão evidente, que até a Rede Globo mostrou interesse em produzir um programa tendo como apresentadores Tim Maia, Gerson King Combo, Tony Tornado e outros da turma.

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