Simone Mattos
De Curitiba
Ambos vendem mais de 20 mil peças por coleção, ganharam respeito dentro e fora do Brasil e iniciam agora uma nova etapa em suas bem-sucedidas carreiras. Os estilistas Alexandre Herchcovitch e Renato Loureiro acabam de reunir suas marcas numa mesma loja, a Jackdaw, localizada no Shopping Crystal, em Curitiba.
Na coleção verão 2000, Herchcovitch utiliza pela primeira vez tons muito claros, que contrapõem volumes retos e geométricos com volumes sinuosos e arredondados como flores. O ponto forte do seu verão será o xadrez.
A estação quente, para Loureiro, teve inspiração nos conventos. ‘‘A tendência religiosa está ligada ao final de milênio, o que está tornando as pessoas mais místicas’’, afirma. Ele explica que o seu trabalho é voltado ao conforto e à praticidade. ‘‘As roupas da minha coleção possibilitam movimento’’, explica.
No dia da inauguração da Jackdaw, em Curitiba, Herchcovitch e Loureiro receberam a imprensa durante um café da amanhã. Com exclusividade, eles conversaram com a Folha2.
Você começou como um estilista alternativo. Como foi o caminho até o reconhecimento internacional?
Herchcovitch – Foi um caminho natural. Eu comecei produzindo para um pequeno grupo que consumia a minha roupa. Era um grupo minúsculo e eram pouquíssimas peças. Isto foi crescendo, o público foi se tornando maior gradativamente, até que consegui vender para fora do Brasil. O caminho teve várias fases: a minha formatura foi uma delas, entrar para o MorumbiFashion foi outra e fazer pela primeira vez uma alfaiataria primorosa também foi uma delas. Começar a vender fora do Brasil, fazer o primeiro desfile no exterior e, atualmente, começar a vender em Paris e desfilar oficialmente para a Semana de Moda também foram fases importantes.
Você ainda carrega a marca de ser um estilista irreverente, por ter começado no mercado da moda alternativa?
Herchcovitch – Acho que não. Eu não tive que me adaptar ao público, ele se acostumou a minha moda. Então, eu pude continuar com os mesmos adjetivos que os jornalistas me puseram (de ousado e irreverente), mas atingindo um público muito maior, vendendo muito mais, porque hoje o público me aceita muito mais.
Quem é seu público hoje?
Herchcovitch – Muito variado. Desde a criança que quer uma camiseta de caveira até a senhora que precisa de uma roupa para casamento. Estou, por exemplo, fazendo roupa para duas debutantes agora. Há gente com pouco poder aquisitivo ou muito. Graças a Deus é um público muito abrangente.
Como é o consumidor curitibano?
Herchcovitch – É um consumidor ávido por novidades. É um público que tem prazer em se vestir, por isso, faço questão de ver minhas roupas neste público. Não está fora dos meus planos criar uma minicoleção exclusiva para cá, para vender na Jackdaw.
Loureiro – Sempre acompanhei o mercado de Curitiba como um mercado que gosta de moda, mas eu ainda não conheço bem o consumidor final daqui, vou conhecer agora. Apesar disto, estou muito tranquilo, porque eu acho que tenho tudo o que a curitibana gosta. Primeiro, ela gosta de tecidos de qualidade, o que eu tenho, ela gosta de acabamentos primorosos, e eu tenho, ela gosta de misturar coisas de moda com coisas básicas, e eu também tenho. Eu sempre tenho uma leitura nova para uma roupa básica e eu acho que isto vai atingir muito bem o gosto das curitibanas
Como está o mercado brasileiro em relação ao internacional?
Herchcovitch – Há olhos curiosos sobre o que se produz no Brasil. Eles têm uma imagem muito pré-concebida de que aqui há só moda de biquíni, e não é isso que estamos mostrando. Estamos mostrando sim uma moda universal, que pode ser usada em qualquer lugar. Por isso, o estilista brasileiro acaba surpreendo lá fora.
Há alguma dificuldade em se fazer moda no Brasil?
Loureiro – Hoje nenhuma, mas antigamente sim. Não tínhamos acesso a todos os tipos de tecidos ou a fechos embutidos, por exemplo. Com a abertura do mercado, hoje podemos tudo. É possível usar simultaneamente os mesmos tecidos que as melhores marcas do mundo estão usando. No Brasil ainda temos uma vantagem a mais, que é a de lançar a coleção mais cedo. O nosso verão 2000, por exemplo, foi lançado antes do verão europeu. O Ale (Herchcovitch) está indo agora apresentar em Londres uma coleção que vocês já viram há dois meses.
Como funcionam os tecidos emborrachados no verão?
Herchcovitch – Acho que quem compra não está nem um pouco preocupado com o calor. Este é um material muito característico no meu trabalho, eu faço porque me dá muito prazer e não vou parar de fazer. Talvez as pessoas nem comprem para usar, mas só para guardar (risos...)
A moda brasileira, durante muito tempo, teve a fama de ‘‘copiar’’ a moda que vinha de fora. O que vocês acham disto?
Loureiro – Existem tendências que são seguidas mundialmente. O fato dos estilistas brasileiros estarem indo lá para fora mostra que aqui também tem moda, que há uma ótica própria dos brasileiros enxergarem esta moda.
Herchcovitch – E existem mil óticas diferentes, mil fatores para se ver esta moda. Se há um pigmento rosa encalhado no mercado, por exemplo, não tenha dúvidas de que a moda vai vir toda em rosa. Foi o que aconteceu com o náilon, que o mundo inteiro passou a consumir...
Como vocês vêem a moda popular?
Herchcovitch – Acho muito interessante observar as minhas costureiras, por exemplo: elas têm uma bagagem da cultura delas e misturam ao que captam das minhas coleções. Isto é muito rico.
Loureiro – Acho um barato a moda do ponto de ônibus, onde as pessoas misturam tudo, sem se importar muito. Acho que o trabalho maior do estilista é informar os ambientes, acrescentar no visual de rua uma visão sua da moda. Não me incomoda a interpretação popular da minha moda, desde que os conceitos não sejam desvirtuados.

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