A pintora Tomie Ohtake é amiga do poeta e tradutor Haroldo de Campos há anos. Ou melhor, há séculos, considerando o interesse do professor pela cultura japonesa e a paixão dos dois pela poesia e teatro oriental de épocas anteriores ao nascimento desses dois monumentos da cultura brasileira. Foi essa contínua osmose artística entre pintora e poeta que deu origem ao livro ‘‘Profundo’’, obra conjunta que traz poemas e gravuras em metal e foi lançada esta semana, em São Paulo.
Haroldo de Campos, um dos mentores do movimento concreto no Brasil, escreveu dez poemas que Tomie Ohtake não ilustrou, mas plasmou em gravuras, impressas pelo profissional Cláudio Vasques, que acompanhou a incursão da pintora na técnica há 11 anos. Na época, Tomie esboçava expansivos gestos que muitos teimavam em ver como representação ideogramática, embora ela não estivesse empenhada em traçar uma correspondência com o poema haicai. Confusão explicável: os primeiros haicaístas associavam filosofia zen com poesia e caligrafia. Tomie apenas buscava a síntese do haicai em imagens.
Agora, com o livro, ela arranjou o parceiro ideal para atingir a essência da poética de Bashô e seus discípulos. Aliás, o poema dedicado a Bashô é o preferido de Haroldo de Campos. Tomie traduz para a linguagem gráfica o impacto do poeta diante de algo tão exótico como uma bananeira, plantada por um discípulo de Bashô quando o mestre trocou sua confortável casa por uma choupana às margens do Rio Sumida, na periferia de Edo. A identificação de Matsuo Bashô com a bananeira era tão grande que, ao lado de seu túmulo, lembra Haroldo, mandou plantar um exemplar de corpo verde como ‘‘orelhas de dragão’’.
Dos dez poemas gravados, esse é o mais sintético e, ao mesmo tempo, mais complexo. Haroldo brinca com outro poema de Bashô que fala de uma bananeira na tormenta. A do poeta brasileiro tem folhas como caudas de faisão ao vento, que caem sobre a pedra polida do túmulo de Bashô. Nele, o verde da planta é transformado em amarelo pela ação do tempo. A gravura de Tomie é a transcriação concreta dessa passagem da vida para a morte. No entanto, é também uma elegia às mudanças de estação, ao milagre da renovação, expresso no poema de Haroldo de Campos.
‘‘A poesia de Haroldo é sutil, simplificada, essencial’’, define Tomie, admitindo que enfrentou dificuldades para resistir ao apelo da representação e chegar a uma tradução intersemiótica. Haroldo, que aprendeu japonês, quer agora que um poeta da terra de Tomie faça uma transcriação poética da obra. ‘‘Poderia ser Gozo Yoshimatsu, mas temos de trabalhar da mesma maneira, porque eu não chamaria a gravura de Tomie de ilustração’’, diz. ‘‘É como se a figura fizesse nascer a palavra, uma coisa osmótica’’, compara o poeta.
‘‘Ele andou pelos mesmos jardins de pedra e pelos templos dourados japoneses que eu andei e essa identificação vem da풒, explica Tomie. Deve-se entender a observação como o reconhecimento do poeta como alguém capaz de entender que o haicai, inscrito numa linhagem milenar, não admite o amadorismo de neófitos. Exige a sensibilidade e a formação dos eruditos. Tomie, admiradora da obra poética de Haroldo, já havia prestado uma homenagem ao amigo num livro lançado na PUC há dois anos, desenvolvendo gravuras baseadas em seu livro ‘‘Galáxias’’. ‘‘Esse foi o ponto de partida do livro’’, lembra Haroldo.
Na verdade, ele começou a ser esboçado antes, quando Haroldo fez uma visita de duas semanas ao Japão e viu uma peça do repertório nô que o deixou deslumbrado. Matsukaze, a moça do quimono roxo que, vestida de príncipe, converte-se no ser amado, provocou tanto a fantasia do poeta que ele não resistiu e fez um poema para a apaixonada moça do título. ‘‘Foi um impacto tão grande que sarei da coluna vendo a peça’’, revela.
Tomie ri e também faz uma revelação. Diz que os olhos de outono de Haroldo, nostálgicos da visão do Monte Miwa, estão mais brilhantes do que os da princesa Nukata e foram eles a inspiração de uma das mais belas gravuras de metal do livro, Akari. Um pictograma que corresponde a uma ponta de luz, onde o universo começou, identifica o rubi, cor do poeta por excelência, segundo a pintora. ‘‘Penso nele como um rubi’’, diz, declaração amorosa testemunhada pela mulher, secretária e companheira de Haroldo, Carmen, também uma apaixonada pela cultura japonesa.
A parceria não deve parar com o livro de gravuras em metal, cuja tiragem foi limitada a 60 preciosos exemplares (US$ 2.500,00 cada álbum). Haroldo de Campos divide com Tomie a atração pelo teatro. Ela já fez cenários para óperas (‘‘Madame Butterfly’’), mas gostaria de trabalhar com o amigo e o diretor Gerald Thomas. Ele, que vive viajando e montando óperas e peças na Europa, foi responsável pela primeira experiência de Haroldo como dramaturgo. ‘‘Gostaria que Gerald dirigisse ‘O Manto de Plumas’’’, diz, imaginando uma nova transcriação da peça de Zeami (Hagoromo).
Como se sabe, as mulheres têm uma presença muito forte na literatura japonesa e a parceria de Haroldo com Tomie é o reconhecimento da mestra da pintura como poetisa, maga capaz de produzir o verbo com seus pincéis e tintas. Como exprimir, por exemplo, a sensação de ver Matsukaze transformada no amado por intermédio de uma dança de leques? As palavras, obviamente, são incapazes de traduzir essa transfiguração. Só a caligrafia de uma mulher pode, segundo ele, descrever um fenômeno como esse.
Ela devolve o elogio lembrando a importância dos concretos não só como um movimento de renovação poética, mas plástica. ‘‘Haroldo tem uma relação tão forte com a pintura que ele chega a sentir a cor’’, observa. De fato, até hoje a influência do concretismo pode ser confirmada pela atividade, no Japão, de poetas concretos que trabalham visualmente sua produção e traduções (por exemplo, Fujitomi Yasuo, tradutor de e.e.cummings). Tomie não só intensifica o sentido dos poemas de Haroldo como tenta criar um equivalente visual que aproveite todos os recursos gráficos à sua disposição. Ela recorta palavras como se selecionasse pigmentos, atrás de uma cor-síntese. Afinal, os ideogramas são desenhos e a poesia que faz uso da fanopéia não descarta o princípio da poesia concreta, em que a palavra tenta resgatar sua força original de evocação.Arquivo FolhaEm vez de ilustrar os poemas de Haroldo de Campos, Tomie Ohtake plasmou em gravuras a essência dos textosAntonio Gonçalves Filho
Agência Estado

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