Ranulfo Pedreiro
De Londrina
José Ramos Tinhorão ainda é considerado um importante crítico de música, mesmo se mantendo afastado da atividade há 20 anos. Ferrenho combatente das influências estrangeiras na música nacional, Tinhorão começou a ficar isolado no início dos anos 80, quando estilos internacionais atuaram de forma ainda mais incisiva no País. Desestimulado, elogiava Zé Coco do Riachão e o Quinteto Armorial quando todo mundo só pensava em pop-rock. Uma postura que defendeu com unhas e dentes e lhe valeu diversas polêmicas. Quando era quase uma voz solitária, trocou o jornalismo pela pesquisa histórico-social.
Como historiador, desviou-se do oficialismo para esquadrinhar o cotidiano de quem nunca fez história. Não sabia que estava antecipando uma tendência francesa. Seu último trabalho, ‘‘As Festas do Brasil Colonial’’ – lançado terça-feira pela Editora 34, junto com outro título seu, ‘‘A Imprensa Carnavalesca’’ – praticamente encerra os dados disponíveis sobre o assunto.
Na obra, José Ramos Tinhorão mostra por que deveria ser menos odiado e mais lido. As mazelas com a bossa nova, o rock e a música estrangeira não deveriam ofuscar um estudioso sério e coerente, revelador de fatos inéditos na literatura sobre música e cultura popular.
O trabalho é científico. Toda a argumentação traz fontes citadas, minimizando elucubrações e seguindo um estilo que o autor mantém há décadas. Atento, evita que a imaginação atrapalhe a lucidez na busca acirrada pela verdade. O texto, apurado, traz passagens irônicas e bem-humoradas.
‘‘As Festas no Brasil Colonial’’ é resultado do curso de pós-graduação que José Ramos Tinhorão fez em História Social na USP. O livro é um achado para quem deseja compreender um pouco mais o dia-a-dia do Brasil colônia e evita pegar carona no grande marketing das comemorações dos 500 Anos de Descobrimento.
A pesquisa de Tinhorão é tão bem construída que desvenda, por exemplo, qual foi o primeiro gênero musical interpretado no encontro entre europeus e nativos. A fonte é a Carta de Caminha. ‘‘A gaita de foles, como é usada na Escócia, é utilizada também no folclore do Norte de Portugal. Ela é feita com bexiga de animais por povos pastores. Eu percebi, na Carta de Caminha, que o português Diogo Dias sai com uma gaita e um tamboril ao encontro dos índios. Por isso a primeira música teria vindo do meio rural português, quem sabe uma folia, que era muito popular’’, comenta, em entrevista por telefone.
O livro reafirma uma constatação lamentável: os sons cotidianos do Brasil colônia estão extintos. A música tocada e ouvida pelo povo se perdeu. ‘‘Como era essa música? Ninguém sabe. A primeira música européia que chegou ao Brasil também está perdida. Os trovadores anotavam por um sistema antigo em notas quadradas que não davam a altura dos sons’’, ressalta.
Com uma aquarela inédita de Debret, reproduzida na obra, o pesquisador constata que a palma já ritmava um encontro musical de negros, embalados a marimbas e reco-reco. ‘‘Um negro que vai na extrema direita da aquarela faz um movimento como de quem bate a mão. Ali o ritmo era de palmas, como é até hoje nas pernadas e no partido alto.’’
A música da elite, como a religiosa e a militar, ao contrário, era registrada porque esses estratos abrigavam pessoas que liam e escreviam música. Mas as obras feitas por negros, índios e mestiços durante a colônia são desconhecidas. ‘‘Naquele tempo o som só era reproduzido por tradição oral ou por escrita. Quem detinha as notações musicais eram alguns entre os poucos alfabetizados, que não prestavam atenção à essa música’’, completa.
Com material tão escasso, José Ramos teve que escarafunchar arquivos e bibliotecas para chegar a uma somatória. ‘‘Foi tirar leite de pedra, eu praticamente esgotei as publicações conhecidas, as fontes são essas que estão no livro. Mas os documentos são sempre uma surpresa, pois os arquivos estão cheios – no Brasil, em Portugal e no Vaticano – de papéis perdidos’’, avalia.
Tinhorão faz, por exemplo, um paralelo entre o Padre Marcelo e os antigos padres festeiros que dançavam alucinadamente nas procissões. ‘‘Essa tradição dos padres festeiros é antiga, e ressurgiu por causa dos carismáticos e dos pastores como uma novidade’’, acrescenta. A Igreja, aliás, englobava elementos pagãos como forma de atrair a participação popular.
O povo, carente de diversão, aproveitava os festejos religiosos. ‘‘A Igreja é muito esperta e se informa em nível pagão. Grande parte das manifestações carnavalescas vem da Igreja. O povo se infiltrava nas coisas religiosas para namorar, se divertir, pois eram as únicas oportunidades que tinha para isso.’’
Alguns abusavam da credulidade popular, como Maurício de Nassau e seu ‘‘boi voador’’. A história é mais ou menos assim: os holandeses construíram uma importante ponte no Nordeste, e cobravam pedágio pela travessia. No dia da inauguração, Nassau prometeu que um boi voaria. Do outro lado da ponte. Muita gente pagou para contemplar uma carcaça de boi amarrada, que passou de uma construção a outra pelo alto.
‘‘Não existe a história do povo porque ela não foi escrita. E os historiadores da elite só recentemente começaram a se preocupar com isso. O interesse é escrever a história dos que, até hoje, não tiveram história’’, assegura o pesquisador.
José Ramos Tinhorão está preparando, agora, um projeto sobre Domingos Caldas Barbosa, escritor e músico, provavelmente o primeiro a levar a modinha à corte portuguesa. A idéia é lançar, em breve, mais luz nos recantos abandonados pela história.
As Festas do Brasil Colonial – De José Ramos Tinhorão. Editora 34, 178 páginas, R$ 19,00.José Ramos Tinhorão lança ‘‘As Festas no Brasil Colonial’’ e reafirma o compromisso de escrever sobre assuntos esquecidos pela história
Detalhes da capa do livro ‘‘As Festas no Brasil Colonial’’Vertical (sistema)Agência EstadoTinhorão: ‘‘O interesse é escrever a história dos que, até hoje, não tiveram história’’

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