Depois de anos incubada na periferia do Rio de Janeiro, a ‘‘onda funk’’ caiu nas graças da indústria fonográfica, surgindo como ‘‘salvação’’ para um cenário em que tanto a axé music quanto o pagode não demonstram o fôlego financeiro de antes.
A ascensão do gênero vem carregada de críticas, como se o país que rebolou na ‘‘Dança da Garrafa’’ e ‘‘segurou o tchan’’ acordasse, repentinamente, chocado com o padrão atingido pelas músicas de sucesso. Chega-se ao dilema do ovo e da galinha: ainda não se avaliou, com eficiência, a força da indústria fonográfica como formadora de gostos. Fica difícil saber se o povo ouve porque gosta ou porque é impelido – provavelmente, ambos.
A música de entretenimento, aliada à sensualidade, sempre teve forte repercussão nacional. No começo do século passado, por exemplo, era sucesso a cançoneta – inspirada no vaudeville francês – ‘‘Não Empurre’’ (autor não identificado). A música narra um encontro malicioso entre um rapaz e uma moça no bonde. Sem constrangimentos, a garota cantava: ‘‘Não empurre, não empurre seu manduca/ Não empurre assim que dói’’. ‘‘Não Empurre’’ foi gravada pela primeira vez em 1902, quando o sistema de reprodução era mecânico, antes mesmo do registro do primeiro samba.
O que deve ser questionado é que, décadas atrás, a indústria cultural não ditava modas como um trator sobrepujando estilos. O problema ocorre quando o meio fonográfico ‘‘compra’’ um ‘‘produto’’ e o transforma em ‘‘febre’’. O caráter educacional que rádios e televisões deveriam ter como concessões públicas vai imediatamente para o espaço. Dominando exageradamente a mídia, a música de entretenimento se transforma em obstáculo para a divulgação de composições com interesse artístico. A culpa, aí, recai sobre a roda-viva que mantém uma lucrativa indústria do sucesso.
O ‘‘funk’’ – termo usado equivocadamente para o gênero – é pouco melódico porque surgiu associado às frases de efeito de galeras que se embatem nos bailes. No livro ‘‘Cidade Partida’’, o jornalista Zuenir Ventura narrou esses confrontos: facções rivais (agora chamadas de ‘bondes’) dividiam espaços delimitados com provocações diversas e gritos de guerra. Não raro, a linha que separava as vertentes se rompia e a pancadaria rolava solta.
O cenário, hoje, é diferente. O estilo alcançou boates em todo o país, fazendo com que mauricinhos e patricinhas tornem-se ‘‘cachorras’’ e ‘‘tigrões’’ sem temer o ridículo. O que era ignorado como expressão marginal tornou-se moda em classes mais abastadas. Só neste momento a sociedade ‘‘despertou’’ para o ‘‘problema’’ do ‘‘funk’’.
Ao mesmo tempo, a descontextualização do gênero é aproveitada pela indústria fonográfica, que já está aparando as ‘‘arestas’’ para que o estilo ganhe mais aceitação nacional. É só lembrar de Claudinho & Buchecha, hoje muito mais perto do pop de Lulu Santos do que o pancadão dos bailes onde a dupla surgiu.
Por ser um gênero pobre – tanto musicalmente quanto financeiramente –, o ‘‘funk’’ possui uma estrutura simples: os refrões se apóiam em batida eletrônica. A harmonia – que cimenta a melodia e o ritmo – é escassa. O refrão aparece o tempo todo. Como em uma brincadeira infantil, ganha força pela repetição excessiva.
O ‘‘funk’’ carioca não permite meio termo. As pessoas gostam ou rejeitam. Ainda não tem o bom-mocismo do pagode comercial. É agressivo, sem domesticações. Essa agressividade se projeta em temas como o sexo e sociedade.
Pesquisador da cultura popular, Tião Carvalho tem uma teoria interessante: a periferia está extremamente fragilizada por causa da violência. A situação, acentuada pela ausência de cidadania, provoca reações. Onde havia samba, hoje há funk, como se ocorresse uma degeneração.
A ‘‘onda funk’’ cumpre a sina dos antepassados. Toca até a exaustão para depois ser cuspida das paradas feito bagaço. A ótica do mercado permanece voltada a qualquer preço para as caixas registradoras.
Antes que ocorra uma caça às bruxas, é bom ressaltar que a diversidade da música brasileira pode tranquilamente atender a todos os gostos, seja entretenimento ou não. Enquanto os mega-empresários do setor se esforçam para empurrar goela abaixo do ouvinte mais uma ‘‘mania’’, as pequenas gravadoras vão ganhando espaço com a segmentação, tratando com seriedade tanto os estilos quanto o público que os consome. O placar desse jogo ainda pode virar.

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