São Paulo, 18 (AE) - Muita coisa mudou no cenário teatral e na vida do diretor José Renato desde que ele fundou o Teatro de Arena, em São Paulo, onde dirigiu espetáculos históricos na luta empreendida pelo Arena na afirmação da dramaturgia brasileira, entre outros, "Eles não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, e "Revolução na América do Sul", de Augusto Boal. "Ainda que o apoio ao autor brasileiro continue importante, hoje o elevado nível artístico de nossa dramaturgia é incontestável e não faria mais sentido retomar o nacionalismo exacerbado da época", comenta o diretor.
Mas ele está longe de proferir uma frase no estilo "esqueçam tudo o que eu disse". Com mais de 50 direções no currículo, José Renato continua perseguindo um teatro capaz de unir diversão e reflexão social e política. É o que o público poderá conferir na sua volta a São Paulo na estréia de "Turandot", de Bertolt Brecht, um musical com 19 atores se revezando em 40 papéis.
Com texto adaptado por Denoy de Oliveira e Sérgio Rubens de A. Torres, músicas especialmente criadas por Marcus Vinícius de Andrade e direção musical do maestro Dyonisio Moreno, o espetáculo estréia amanhã no Teatro Denoy de Oliveira do Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (CPC/Umes).
"Turandot" tem como cenário a China do século 17, mas discute temas muito atuais como a corrupção e a relação dos intelectuais com o poder. Tudo começa quando o estoque de algodão, principal fonte de renda de uma cidade, desaparece misteriosamente, apesar da excelente safra do ano, acarretando desemprego e fome da população.
O mistério não passa de pura e simples especulação. O imperador e seu filho estocaram clandestinamente o algodão para elevar o preço do produto. Pressionados pela mobilização social e vendo seu poder ameaçado pelo surgimento de um líder popular, eles instituem um concurso entre os "Tuis", os homens de saber
para que criem uma justificativa convincente para o desaparecimento do algodão.
Quem criar a explicação mais convincente casa com Turandot, a filha do imperador. Os que não convencerem serão decapitados. Qualquer semelhança entre os "Tuis" e nossos economistas ou sociólogos de plantão não será mera coincidência, uma vez que José Renato mantém a atmosfera de fábula, mas atualiza seus paralelismos.
"Quando escreveu o texto, Brecht fazia alusão ao nazismo", lembra. No entanto, ao criticar a corrupção, mostrando a importância da mobilização popular e o perigo da manipulação das informações, a peça permite facilmente novas leituras. "O texto fala da má utilização do saber, do conhecimento usado a serviço do poder, tema bastante atual no Brasil, afinal temos um sociólogo no poder."
Mas o diretor não busca um teatro de tese. "Acho que o teatro deve ser uma festa, uma confraternização." E, claro, ter uma produção bem cuidada. Segundo ele, a produção ligada ao CPC não mediu esforços, o que fica claro na confecção do cenário e dos figurinos criados por Cyro del Nero. "Ele criou um dispositivo cênico muito simples, porém capaz de dar conta de diversos ambientes, entre eles uma praça ao ar livre, o interior de um castelo e um templo oriental."
Entusiasmo - José Renato destaca ainda a qualidade das músicas criadas por Marcus Vinícius e o elenco. "São todos profissionais selecionados entre mais de 200 que realizaram testes nos quais se procuravam atores capazes de cantar, dançar e atuar." Depois de quatro meses de ensaio, ele se mostra entusiasmado. "O resultado está muito bom, apesar das dificuldades."
Algumas delas começam pelo texto, o último escrito por Brecht, em 1954. O fato de ele ter morrido antes de levar "Turandot" ao palco explica, segundo o diretor, algumas deficiências da peça que numa montagem certamente teriam sido aprimoradas pelo autor. "Trata-se de uma peça muito estimulante
mas o original era excessivo, barroco demais", afirma. "Denoy e Rubens fizeram três mudanças até chegar à versão atual com uma linguagem ágil que valoriza o jogo e a brincadeira."
O cineasta Denoy de Oliveira, morto no início do ano, foi o responsável pelo convite a José Renato, ainda no ano passado. "Ele estava à frente da organização do CPC, batalhava na tentativa de retomar um teatro popular, na linha da revista brasileira, e o fato de ser um projeto do Denoy foi um dos maiores estímulos para aceitar o convite."
Mais conhecido pelo seu trabalho no cinema - é o diretor do filme "O Baiano Fantasma", ganhador do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado de 1984 -, Denoy de Oliveira começou sua carreira como ator de teatro na peça "O Círculo de Giz Caucasiano", de Brecht. Em 1964, fundou com vários artistas
entre eles Vianinha e Ferreira Gullar, o Grupo Opinião.
A afinidade de José Renato com o amigo não é de hoje. Tendo na bagagem dois anos de experiência como assistente de direção no Teatro Nacional Popular de Jean Vilar, na França, e um ano como assistente de Giorgio Sthreller, em Milão, o diretor escreveu um belo texto para o programa da peça sobre o teatro popular. Nele, relembra a busca dos anos 60 por um teatro popular e as várias vertentes de pensamentos e dúvidas que "faziam a cabeça" dos militantes do efervescente teatro brasileiro da época. Serviço - Tourandot. Comédia musical. Texto de Bertolt Brecht. Adaptação de Denoy de Oliveira e Sérgio Rubens de A. Torres. Direção de José Renato. Com ¶ngela Valério, Armando Filho, César Volpi, entre outros. Duração: 1h50. Quarta e quinta, às 20 horas; sexta e sábado às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 8,00 (quarta e quinta) e R$ 15,00 (sexta, sábado e domingo). Teatro Denoy de Oliveira. Rua Rui Barbosa,323, São Paulo. tel. 251-3119

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