São Paulo, 19 (AE) - Foram divulgados hoje os nomes dos vencedores da 13.ª Bolsa Vitae de Artes, que concede este ano 26 bolsas para o desenvolvimento de projetos artísticos (criação e pesquisa). Os 26 contemplados receberão R$ 2.800,00 mensais em períodos que variam entre 6 e 12 meses - de acordo com a natureza do projeto. "É o projeto da minha vida", disse o fotógrafo Marcos Santili, selecionado com "Amazônia em Transformação". Ele documenta desde os anos 70 o processo civilizatório no norte do País, principalmente em Rondônia. Já ganhou bolsas das fundações Fullbright e Guggenheim para tocar o projeto - o dinheiro da Vitae destina-se ao desenvolvimento do roteiro.
O projeto de Santili é realmente espantoso: ele já tem cerca de 10 mil cromos selecionados e 120 horas de gravações com depoimentos que pretende utilizar na série de vídeos para televisão. O intuito é registrar as transformações na Amazônia, passando pela mudança das culturas nativas e a formação de cidades e malhas viárias. Para Eliete Mejorado, formada em Artes Cênicas pela Unicamp e frontwoman do duo Tétine, de São Paulo, ser contemplada com a Bolsa Vitae representou uma dupla felicidade: ver reconhecido o caráter multidisciplinar do seu projeto e poder denunciar os calvários burocráticos pelos quais passam os cidadãos brasileiros.
"Contrato", o projeto de Eliete, é uma videoperformance que registra os nós da burocracia: filas de hospitais, boletins de ocorrência, visitas a cadeias, adoção de crianças. "A idéia é delatar tudo que não funciona direito neste país", diz Eliete, que forma com Bruno Verner a dupla de música e performance de São Paulo, o Tétine. O próprio projeto de "Contrato", ela diz, foi vítima da burocracia. Inscrito na Bolsa Capes, foi recusado com a alegação de que - pelo seu caráter multimídia - não havia quem o examinasse na instituição.
Cinema - A premiada cineasta Tata Amaral, de "Um Céu de Estrelas", que está em Roterdã para a pré-estréia mundial de seu longa "Através da Janela", viu ser premiado seu projeto de pesquisa e roteiro para um novo filme. É um projeto no mínimo curioso: ela quer adaptar o ensaio jurídico "Crimes Contra os Costumes e Assédio Sexual", de Luiza Nagib Eluf. A autora faz uma reflexão sobre os crimes sexuais contra a mulher e propõe a alteração do caduco Código Penal Brasileiro, de 1940. Tata Amaral pretende examinar os antecedentes do ato sexual sob coerção e não os crimes violentos propriamente ditos (como o estupro).
"É nesse processo que podemos discutir a questão da responsabilidade, motivo pelo qual denomino o projeto de "Sedução", diz a diretora. Outro nome celebrado do cinema nacional, o diretor e roteirista Jorge Durán, também foi contemplado com o propósito de desenvolver um roteiro. Seu argumento mostra um jovem escritor que se muda para o deserto em busca de inspiração. Durán foi o roteirista de "Gaijin", de Tizuka Yamazaki, e de "Pixote" e "O Beijo da Mulher Aranha", de Hector Babenco. "A terra no deserto revela uma forma de memória viva, em constante mutação", diz Durán. "É como as camadas geológicas que se superpõem, encobrindo uma à outra, fossem nossas lembranças", afirma.
Já o radialista André Amparo levou a Vitae por um projeto prosaico: quer registrar em documentário a vida de pessoas, profissões e objetos de outros tempos, como o fotógrafo lambe-lambe, o relojoeiro, o alfaiate e a máquina de escrever. "Eles constituem uma espécie de memória urbana", assinala o artista. Esculturas - A consagrada artista plástica Anna Bella Geiger, conselheira do Museu Nacional de Belas Artes e consultora do Museu da República, ganhou a bolsa com o projeto "As Estratégias do Ensino das Artes Plásticas durante o Regime Obscurantista: o Período de 1969 a 1976". Sua tese é a de que o autoritarismo do regime militar impunha uma censura rigorosa às atividades artísticas - o que levou muitos artistas a abandonar suas atividades. Anna Bella tem obras nas coleções do MoMA de Nova York, no Victoria & Albert Museum, em Londres, e no MAM e Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Para Ester Grinspum, a Bolsa Vitae dará oportunidade para o desenvolvimento do projeto "Do Lugar - O Espaço do Atelier". Artista plástica com formação em arquitetura, ela quer promover uma reflexão sobre o espaço de trabalho do artista
o atelier. O resultado será apresentado em forma de ensaio fotográfico. Ester já expôs na Pinacoteca, no Museu Brasileiro da Escultura e ganhou bolsas da Fundação Helena Segy e da Cité Internationale des Arts, de Paris. O gaúcho Fernando Lindote pesquisa o que chama de "condição corrompida da mendicância". O trabalho vai se chamar "Outro Porco Empalhado" e prevê a realização de performances, pintura e vídeos.
Lindote vive em Florianópolis e participou, em 1997, do "Panorama da Arte Brasileira", no Museu de Arte Moderna de São Paulo. No ano passado, fez uma individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Para o escultor mineiro Gustavo Rezende, o incentivo da Vitae servirá para a produção de 10 a 12 obras. Serão esculturas em pedra, mármore de Carrara, borracha, gesso, zinco e outros materiais e o projeto chama-se "A Gratidão do Reencontro". Por meio de uma pesquisa, ele quer fazer a relação entre os diversos procedimentos artísticos que surgiram em seu trabalho, desde o início da carreira.
"O projeto caracteriza-se por um reencontro do fazer aproveitando a incorporação de novas tecnologias", diz Rezende. Ele vive em São Paulo, onde é professor nos cursos de arquitetura e artes plásticas da Fundação Armando álvares Penteado. Também tem obras nos acervos da Pinacoteca e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Esteve no "Panorama da Arte Brasileiro" do MAM de São Paulo, no ano passado.
Outro que utilizará a bolsa para realizar esculturas é Paulo Monteiro, que já participou de duas bienais internacionais de São Paulo. Suas dez esculturas serão de chumbo fundido em grandes dimensões - um de seus trabalhos mais recentes pesava aproximadamente 400 quilos. O paraibano José Rufino, professor da Universidade Federal da Paraíba, pretende realizar uma série de 200 desenhos com a sua bolsa. Com "Obliteratio", ele quer revisitar lugares e paisagens do Nordeste. É uma espécie de recuperação da memória - Rufino já realizou trabalhos a partir dos papéis de carta, envelopes e documentos recebidos como herança do avô paterno.
Já Mônica Nador tem uma abordagem menos intimista e mais social no seu projeto, "Paredes Pinturas". Ela quer pintar muros em periferias de centros urbanos, em pequenas cidades e na zona rural - a artista já teve experiência recente em um acampamento do Movimento dos Sem Terra (MST). O resultado do trabalho deverá ser publicado pela Edusp. "Pretendo passar o ano em seis diferentes pontos dos Estados de São Paulo, Bahia e Amazonas", comenta a artista, natural de Ribeirão Preto e professora do Museu Brasileiro da Escultura desde 1998.

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