Fundação Telefônica multiplica investimentos na área social
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quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Ricardo de Douza 
São Paulo, 20 (AE) - Maio do ano passado. Em meio a uma torrente de reclamações, processos e denúncias sobre os problemas ocorridos durante a instalação do novo sistema de telefonia em São Paulo, a Telefônica lança uma fundação com o objetivo de investir em programas sociais, principalmente nas áreas de saúde e educação. Na época, alguns críticos garantiam que a Fundação Telefônica nada mais era do que uma cortina de fumaça para amenizar a confusão criada pela empresa de origem espanhola. Contudo, quase um ano depois, a fundação não só apaga essa imagem como multiplica seus projetos sociais. Agora, começa a atuar na área cultural.
Os investimentos ainda são tímidos, mas o primeiro projeto patrocinado é mais que consistente, além de ter repercussão internacional garantida: o livro Retratos das Crianças do Êxodo, do fotógrafo Sebastião Salgado. Na verdade, a escolha tem relação direta com a principal diretriz da fundação, que é o apoio aos setores carentes da sociedade. Como o livro de Salgado mostra crianças retratadas em campos de refugiados, convivendo com a guerra e a miséria, o projeto encaixou-se com precisão no campo de atuação da instituição.
"A idéia era que fosse uma coisa para mexer com as pessoas
mostrar que as crianças têm esperança no futuro", explica o diretor-presidente da Fundação Telefônica, Sérgio Mindlin. Convém esclarecer que a fundação tem um orçamento próprio, que independe dos recursos que a Telefônica aplica em patrocínios. Retratos de Crianças do Êxodo, por exemplo, custou R$ 200 mil para a instituição, pouco mais de 4% do orçamento de R$ 6 milhões que serão gastos com projetos sociais e educacionais em 2000.
A discrepância de valores mostra que a atuação da fundação no setor cultural não está totalmente definida. Mas é certo que, a princípio, eles estarão relacionados ao social. "À medida que formos consolidando os projetos, eles serão direcionados para a área social", diz o diretor. Entre as possibilidades estudadas pela fundação está a criação de oficinas culturais para jovens. "Mas sempre aproveitando o potencial tecnológico da empresa", ressalta.
Mindlin conta que na Espanha a atuação institucional da Telefônica ocorreu num sentido inverso, isto é, começou a investir em cultura e, posteriormente, direcionou recursos para a área social. "Até porque lá a demanda social é bem menor que no Brasil", analisa o diretor. "A empresa tem uma sala de exposições em Madri, que abrigou recentemente a mostra Arte e Tecnologia, com obras cibernéticas." Há cerca de três anos, a empresa espanhola decidiu estruturar diretrizes no setor social e, um ano depois, criou a fundação. Hoje, ela também atua em países como Argentina, Chile e Peru.
Incerteza - Sobre o livro de Sebastião Salgado, Mindlin não garante que o projeto terá outros desdobramentos ou se a empresa continuará apoiando trabalhos do fotógrafo. "Seria interessante que fosse o início de uma parceria a longo prazo", afirma o diretor. "Ele é um profissional que tem uma ampla visão sociocultural, não faz um trabalho apenas pela beleza das fotos, mas para chocar as pessoas e denunciar injustiças."
Em virtude do patrocínio da fundação, o preço do livro de Salgado foi reduzido. Passou a custar R$ 38,50 em vez dos R$ 60 00 estimados antes do apoio. Com isso, a tiragem também aumentou
chegando a 25 mil exemplares. "O patrocínio ampliou a possibilidade de acesso das pessoas ao trabalho", avalia Mindlin.
Diferentemente da fundação, a empresa Telefônica investe com mais consistência em projetos culturais. Só neste ano está patrocinando os espetáculos teatrais Honra, com Regina Duarte, Estórias Roubadas, com Beatriz Segall, e Mais Perto, com Renata Sorrah e José Mayer; a programação de concertos da Sociedade Cultura Artística; e a Exposição Êxodos, de Sebastião Salgado, em cartaz no Sesc Pompéia, entre outras atividades.


