Rio, 21 (AE) - Um ano antes de morrer, o antropólogo e senador Darci Ribeiro criou uma fundação com seu nome, para divulgar sua obra e levar adiante seus projetos. A quase três anos de sua morte (que se completam em fevereiro) seu projeto está virando realidade. A Fundação Darci Ribeiro está preparando o lançamento de um livro inédito, "Histórias Gáticas", e o relançamento de obras esgotadas. Além disso, assinou convênio com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cepedoc) da Fundação Getúlio Vargas, para catalogar mil caixas de documentos deixadas por ele.
Como tudo na vida de Darci Ribeiro, a criação da fundação foi tumultuada. Não por falta de reconhecimento de sua obra, mas porque não encontrava um local que lhe agradasse. A idéia do antropólogo era construir uma casa num terreno doado pela Universidade de Brasília (UnB), mas não havia dinheiro. Pensou-se em mantê-la no apartamento onde ele morava em frente do mar de Copacabana. Mas a idéia foi vetada pelo condomínio que não queria muito movimento no prédio. Finalmente, no fim de novembro, a fundação foi inaugurada num casarão em Santa Tereza, na zona sul, com uma das melhores vistas da Baía de Guanabara.
Com a casa em ordem, a vice-presidente da fundação, Tatiana Memória, começa a pôr em prática os planos e sonhos de Darci Ribeiro. "Ele não tinha medo da morte, mas temia ser esquecido, deixar de atuar na vida brasileira", lembra ela. "Dois anos antes de morrer, apressou-se em lançar tudo que estava atrasado e só sobraram "Histórias Gáticas", que não encontrou editora por ser um livro caro, e o romance "Lapa Grande", que ele escreveu muito jovem e não quis publicar porque achava muito ruim".
Segundo Tatiana, nos últimos anos de vida, Darci via muita novela e brincava que ia escrever uma. "Lapa Grande é uma verdadeira novela mexicana, sem valor literário mesmo", comenta ela, garantindo que vai respeitar o desejo do antropólogo e deixar o romance inédito. "Mas os originais e todos os outros documentos dele estão à disposição dos pesquisadores".
O relançamento dos livros esgotados era um projeto de Darci e ele conseguiu por intermédio da Companhia das Letras, editora de "O Povo Brasileiro", a reedição da coleção "Antropologia da Civilização" e "O Dilema da América Latina". A fundação já encomendou do escritor Eric Nepomuceno a complementação de "Aos Trancos e Barrancos - Como o Brasil Deu no Que Deu", uma irônica história nacional, do Descobrimento até 1980. Mas faltam ainda editores para "O Testemunho" e os livros de arte "Arte Plumária dos Índios Urubu-Kaapor" e "Kadwel-História dos Índios". "Quero reeditá-los como da primeira vez", sonha Tatiana Memória. Documentos - A grande incógnita da fundação são os documentos deixados por Darci Ribeiro no seu apartamento, no sítio e na casa de praia de Maricá (no litoral norte fluminense), na casa de sua primeira mulher, Berta Ribeiro, e na casa do irmão, em Montes Claros, cidade no norte de Minas onde ele nasceu. "Desde a década de 30, quando foi estudar em São Paulo, Darci guardou tudo o que escrevia ou recebia", conta Tatiana. "Mas não ordenou esses papéis e cada secretária que teve arrumava de um jeito".
Tatiana ainda não conseguiu trazer tudo para a sede da fundação nem guardar de forma apropriada, mas já tem idéia de publicar suas entrevistas (ou uma seleção delas, porque Darci deu muitas) e artigos inéditos escritos para a imprensa diária e publicações especializadas. "Mas só vou lançar qualquer coisa depois de tudo catalogado, porque correspondências e documentos pessoais estão misturados a outros de interesse geral", adianta ela. "Ele deixou também várias caixas de fotos, mas sem referência à data e ao local onde foram tiradas".
A fundação é mantida com os direitos autorais de Darci Ribeiro, verbas que recebe por intermédio de convênios e doações
mas até agora não teve patrocínio, embora este seja um objetivo de Tatiana Memória. "Meu sonho é aparecer alguém com jeito para mexer com isso e conseguir os patrocínios", conclui ela.

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