Funarte lança pacote com curtas premiados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 04 (AE) - Em todas as vitórias de "Central do Brasil" ao redor do mundo, o telefone sempre soou numa casa em Itabuna, no interior da Bahia. É a casa de Socorro Nobre. Socorro é a ex-presidiária que escreveu uma carta ao escultor Franz Krajcberg. Walter Salles transformou-a em tema de um documentário chamado "Socorro Nobre". Salles também gosta de dizer que a carta de Socorro foi o ponto de partida para que ele fizesse "Central do Brasil". Não por acaso, o rosto de Socorro é o primeiro que se vê na abertura do filme indicado para o Oscar. Ela é a primeira a ditar uma carta para Dora, a escrevinhadora da "Central do Brasil", personagem interpretada por Fernanda Montenegro.
"Socorro Nobre" é um dos curtas premiados (no País e no exterior) que estão sendo lançados este mês pela Riofilme-Sagres- Funarte. É um pacote que também inclui "Cinema de Poesia", com três curtas de Joel Pizzini: "Caramujo Flor", "Enigma de Um Dia" e "O Pintor". São todos admiráveis.
É uma emoção falar com Socorro Nobre. Se há uma pessoa que renasceu foi ela. Estava na cadeia, condenada a mais de 20 anos, quando viu uma reportagem sobre Franz Krajcberg, o escultor que transforma em obra de arte a madeira da floresta queimada, sensibilizando as pessoas para a vida. Esse homem habitava o que se poderia considerar o paraíso na Terra - uma praia lindíssima. Socorro, no outro extremo, vivia num inferno, a cadeia. E, no entanto, ela percebeu que entre o céu e o inferno havia um elo.
Socorro sonhava com um resgate, algo que a redimisse do seu passado de crime e horror. Krajcberg, atormentado pelas lembranças de guerra, também queria um resgate. Na prisão, ela descobriu sua vida interior e, por meio dela, o paraíso. Socorro escreveu a carta que o escultor mostrou a Walter Salles. O restante é história: o documentário "Socorro Nobre", a libertação da presidiária, o triunfo de "Central do Brasil". "Fui resgatada por dois homens nobres", diz Socorro, falando de Salles e de Krajcberg. Na madrugada de 22, ela gostaria que o telefone tocasse de novo na sua casa, anunciando a vitória de "Central do Brasil" no Oscar. "Vai ser difícil", reconhece. Nem por isto deixará de estar torcendo. "E, desta vez, o Walter nem precisa me telefonar, porque ele sabe que eu vou estar torcendo pela televisão".
Joel Pizzini não está menos emocionado com o lançamento de seus curtas numa única fita. Atualmente, ele trabalha na finalização do documentário "500 Almas", sobre os índios argonautas do Pantanal, e prepara o seu longa sobre as origens de "Limite", o clássico de Mário Peixoto. Na terça, participa no Rio do lançamento oficial da fita intitulada "Cinema de Poesia". O pintor brasileiro Iberê Camargo foi aluno do grego, filho de pais italianos, Giorgio De Chirico. Ambos se reencontram na obra de Pizzini e na fita da Funarte.
Iberê é o tema do documentário "O Pintor". De Chirico serviu como fonte de inspiração para "Enigma de Um Dia". São dois dos três curtas - o terceiro é "Caramujo Flor", sobre Manoel de Barros. O último consegue a mágica de transpor, em imagens intencionalmente fracionadas, a poesia de lodo e voz de bicho do poeta mato-grossense. Pizzini usa como eixo os itinerários dos dois personagens centrais, recorrentes ao escritor - o Andarilho (Rubens Correa) e Cabeludinho (Ney Matogrosso), suas personas. O homem e o caramujo revelam as mesmas interrogações essenciais e os signos poéticos são vertidos em imagens de impacto, como a da lesma sobre o relógio de bolso lançado ao solo. Cinema de poesia, mesmo.
"O Pintor" consegue o prodígio de chegar bem próximo da pintura de Iberê, justamente porque não busca explicações fáceis para a obra do artista, com suas cores escuras e fortes. Mais complexo, "Enigma de Um Dia" discute a pintura metafísica por meio da figura do guarda de museu, interpretado por Leonardo Villar, que descobre um quadro de De Chirico. O filme é repleto de referências visuais concretas que aproximam a paisagem italiana de São Paulo (Brás, Bexiga e Barra Funda) do cenário do quadro.


