A nicotina é insidiosa no sangue e na mente. Quando meu pai teve AVC, o médico perguntou se ele fumava, respondeu não. E nunca fumou? – o médico perguntou e ele contou que fumara desde os dez anos até dois anos antes. Ao saber que mesmo assim isso podia ser causa do AVC, ele disse ah, se eu soubesse não tinha parado...

Comecei a fumar aos 16 porque no colégio muitos fumavam e aquilo parecia “normal”. Na faculdade, eram enfumaçados os ensaios de teatro.

Depois, na redação da Folha de Londrina, quase todas as escrivaninhas tinham cinzeiros. Mas aos 25 anos, por mal conseguir engolir com a garganta inflamada pelo fumo, parei de fumar – ainda quando, se não era mais glamoroso como nos filmes antigos, ainda podia parecer charmoso para os desavisados.

Hoje, embora com o número de fumantes diminuindo sempre, nos filmes ainda se fuma muito mais que na realidade... (propaganda dissimulada das indústrias de fumo, que no começo do século 20 chegavam a anunciar que fumo fazia bem à saúde e até emagrecia...). Associaram tabagismo à beleza e até ao feminismo, para as mulheres, e ao sucesso para os homens – até que, diante das muitas evidências de que o fumo adoece e mata tanta gente quanto consome verbas públicas no sistema de saúde, a propaganda do fumo foi proibida.

Em 1960, quase 50% das pessoas fumavam, porém a imprensa se calava sobre os malefícios, num silêncio cevado pela publicidade. Mas médicos e políticos responsáveis lutaram até que em 1996 os rótulos de cigarros passaram a avisar que são prejudiciais à saúde, com fotos reveladoras de doenças, e a partir de 2000 foi proibido fumar em ambientes públicos e bares, livrando os não fumantes de aspirar fumaça e no dia seguinte ter cheiro de fumo nos travesseiros.

Por isso, o número de fumantes em 1989 caiu para 34,8%. Em 2009, para 12,6%. Entre os jovens, desde então sempre esteve abaixo de 7%. E quase todos os fumantes passaram a fumar bem menos, passando a ser raridade os “dois maços por dia” antes comuns. Entretanto surgiram os cigarros eletrônicos, que viciam mais e causam mais danos, virando moda

entre os jovens...

As pesquisas médicas indicam que quem fuma tem 25 vezes mais chance de câncer pulmonar, e 2 a 4 vezes mais de ter AVC ou doença arterial coronariana, uma das principais causas de morte. O fumo também causa câncer em muitos outros órgãos, claro: porque o corpo deveria aceitar fumaça, que na natureza sempre causa destruição?

Durante séculos a indústria de fumo conseguiu iludir muita gente, mas o século 21 se marca como tempo de rejeição ao fumo, com até fumantes lamentando fumar, suportando o vício com desgosto, pois a nicotina dominadora de corpo e espírito.

Nonno José e nonna Paulina fumaram a vida inteira, sem problemas – pois não tragavam seus cigarros de palha com fumo de corda. Apenas pitavam e soltavam a fumaça, e até o cheiro era melhor que os cigarros industriais. Quando meu pai teve AVC, falou pois é, eles estavam certos, né?

Tomara que a Humanidade não precise de século para se livrar de vez dessa desgraça.

mockup