Fumaça
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de maio de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Ilustração: Marcos Losnak Existem centenas de maneiras extravagantes de um fumante parar de fumar, desde se trancar num quarto sem fósforos e engolir a chave até beber água amanhecida com bitucas de cinzeiros.
Entre as mais estranhas maneiras de abandonar o vício do cigarro, a adotada pelo professor norte-americano Richard Klein foi, ao mesmo tempo, produtiva e provocativa. Para deixar de fumar, Klein escreveu um livro, não um livro comum, mas um livro sobre cigarros, uma ensaio dedicado à cultura dos cigarros.
Em Os Cigarros São Sublimes (Cigarrettes Are Sublime), publicado pela Editora Rocco, Klein parte do questionamento básico tipo todo fumante sabe que o cigarro faz mal à saúde, mata, tem gosto ruim, custa dinheiro, e mesmo assim fuma. O que leva as pessoas ao uso do tabaco? Tornar-se viciado e continuar a fumar implica uma disposição persistente de encontrar algum benefício ou prazer na droga.
A droga mais consumida no mundo, ao lado do álcool, o cigarro possui um charme, glamour e um leve gosto de transgressão. Pode tanto ser um companheiro para os momentos de solidão, ou um instrumento de interação social. Sempre é conferida ao cigarro - mesmo sendo totalmente inútil - uma função utilitária, como diminuir a ansiedade, por exemplo. Klein vai mais fundo: Concluí que não é a utilidade, por mais útil que possa ser, que explica seu poder de atrair a fidelidade imperecível de bilhões de pessoas que morrem por sua causa. A qualidade que explica seu enorme poder de sedução está antes ligada às formas específicas de beleza que promove.
Em Os Cigarros São Sublimes o autor vai buscar na filosofia de Immanuel Kant (1724 - 1804) seu argumento básico: Os cigarros definitivamente não são belos, mas são sublimes em virtude do poder fascinante de propor o que Kant chamaria de prazer negativo: um prazer secretamente belo e inevitavelmente doloroso que procede de uma certa implicação de eternidade; o gosto de infinitude em um cigarro reside precisamente no gosto ruim que o fumante rapidamente aprende a gostar. Sendo sublimes, os cigarros, em princípio, resistem a todos os argumentos dirigidos contra ele, da perspectiva da saúde e da utilidade.
O objetivo de Klein é conferir ao cigarro um dignidade filosófica, considerando-o um instrumento simbólico. Procura atingir a raiz do tabaco, para isso escava toda a simbologia que o cigarro traz enrolada dentro de si. Símbolos estes que são mais fortes que o fato de que fumar provoca câncer, infarto, etc.
Em seus argumentos, Richard Klein faz uso da literatura e do cinema para desenrolar o valor simbólico. Além de obras de Jean Paul Sarte e Charles Baudelaire, debruça-se sobre o livro As Confissões de Zeno (La Coscienza di Zeno) do escritor italiano Italo Svevo. Trata-se de um romance publicado em 1923 que narra as memórias de Zeno, um homem que passou a vida toda tentando parar de fumar e só o consegue quando está bem velhinho. No fim da vida conclui que sua contínua tentativa de deixar de fumar foi sua maneira de viver, seu sentido existencial, nem melhor nem pior que qualquer outra. Fumar ou renunciar ao fumo, tornam-se uma forma de meditação.
Klein se debruça sobre como o cigarro aparece no cinema americano. Para ele, o ato de fumar nas cenas cinematográficas funciona como autênticas legendas de ações e de personagens. Também dedica um capítulo à famosa história de Carmem, imortalizada pela ópera de George Bizet (1838 - 1875) que por sua vez foi inspirada num romance de Proper Meriée (1805 - 1870). Na história da cigana Carmem, de Meriée, é o registro histórico onde pela primeira vez na literatura aparece uma mulher fumando. A associação da mulher fumante à mulher transgressora e sensual possui aqui uma de suas origens.
Em determinadas épocas o fumo sofre intensa campanha contra sua utilização, em outras é estimulado. Para Klein, as guerras são o melhor exemplo disto: Todas as sociedades reconhecem a utilidade e o valor dos cigarros em períodos de ruptura social, guerra ou crise econômica, pelo aumento de seu consumo e pela maneira como a atitude pública muda em relação a eles. O padrão confirmado no século XX: em períodos de tensão civil e estresse social, os cigarros são amplamente tolerados e se tornam objetos de sentimento patriótico e ligação afetiva.
Assim, o cigarro se tornou o melhor amigo dos soldados nas batalhas ocorridas neste século. Ele adquiriu a escala de item de necessidade básica para os soldados em linha de batalha. Palavras de Klein: Quando fumamos, não sugamos simplesmente uma teta de consolo; o fumo nem sempre, provavelmente nunca, é o leite materno - geralmente tem o gosto ruim, produz uma ligeira náusea, induz a sensação de morrer um pouco cada vez que se dá uma tragada. Mas é o veneno nos cigarros que os torna recomendáveis ao heroísmo - um veneno forte; é preciso uma quantidade infinitesimalmente menor de nicotina para matar um adulto do que, digamos, de heroína ou de cocaína. Em cada tragada há um leve gosto de morte, que torna os cigarros a disciplina autêntica dos bons soldados.
Os Cigarros São Sublimes não se preocupa em informar a origem e a propagação do tabaco pelo mundo depois da descoberta das Américas. Não se preocupa em refletir sobre o fato do fumante interferir no ambiente alheio ou coletivo através da fumaça e do cheiro. Não se preocupa em pensar no tabaco como uma poderosa indústria que movimenta montanhas de dinheiro e impostos. Detém-se ao seu valor simbólico, imaginário, estético e cultural numa época em que crescem as restrições aos fumante. Richard Klein reconhece a dificuldade de detalhar as particularidade do tema: Talvez somente no momento em que o ato de fumar desaparecer seremos capazes de descobrir o lugar que ele ocupa em nosso imaginário social.
Recentemente, dois filmes de Wayne Wang com roteiros do escritor Paul Auster desenharam um belo enfoque sobre o ato de fumar. Cortina de Fumaça e Sem Fôlego narram a história de várias pessoas que frequentam a mesma tabacaria numa esquina do Brooklyn. Com Harley Keitel no papel do dono e balconista da tabacaria, a vida dos fregueses vão se entrelaçando em relações cotidianas. Uma das passagem - os roteiros dos filmes foram publicados em forma de livro, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in The Face), pela Editora Best Seller - ilustra uma das artimanhas da sedução do cigarro: a fumaça. Num diálogo dentro da tabacaria, o personagem Paul Benjamin (alter ego de Paul Auster) conta que o introdutor do tabaco na corte inglesa, Sir Walter Raleigh apostou com a rainha Elizabeth I que conseguia medir o peso da fumaça. Uma façanha praticamente impossível: Concordo que é estranho. Quase como pesar a alma de alguém. Mas Sir Walter era um sujeito inteligente. Primeiro pegou um charuto inteiro, colocou na balança e pesou. Depois acendeu o charuto e o fumou, batendo cuidadosamente as cinzas no prato da balança. Quando terminou, pôs o toco na balança com as cinzas e pesou o que havia sobrado. Então subtraiu esse número do peso original do charuto inteiro. A diferença era o peso da fumaça.
Cigarros São Sublimes - Uma História Cultural de Estilo e Fumaça - de Richard Klein, Editora Rocco, tradução de Ana Luiza Dantas Borges, 261 páginas, R$ 26,00/Livraria Rosa do Povo (fone: 041/321-5691).


