Arquivo FolhaFrederico Fulgraff: ‘‘Não existe conscientização das cooperativas escravagistas’’O cineasta paranaense Frederico Fulgraff estará percorrendo 21 cidades alemãs, a partir do dia 9, para exibir e dar palestras sobre o documentário ‘‘Bitter Orange’’, que trata da citricultura no Brasil e faz as delícias dos europeus. Ele mostra as condições miseráveis e desumanas em que vivem os operários que colhem laranjas - dando especial atenção ao trabalho infantil - em contraposição com a opulência econômica das empresas. A estréia brasileira deverá acontecer em Curitiba entre a última semana de julho e início de agosto.
A estada alemã se estenderá até 10 de julho. Apesar das palestras, Fulgraff garante que ‘‘nada terá a declarar’’ além daquilo que está registrado no filme. Ou seja, as imagens falam por si. Rodado no final do ano passado em plantações do Paraná, São Paulo e Santa Catarina, ‘‘Bitter Orange’’ é um documentário ‘‘quase encomendado’’, nas palavras de Fulgraff. Existe na Europa um movimento dos consumistas em favor de mudanças num trabalho que se poderia caracterizar escravo.
Justiça social Em algumas cidades o Partido Verde estará servindo como anfitrião ao cineasta curitibano, e na platéia é certa a presença de representantes de ONGs (organizações não governamentais). O objetivo é um só: propor comércio justo, para tentar diminuir a disparidade aviltante. ‘‘Eles querem ajudar pequenos e médios produtores, citricultores, para criarem cooperativas’’, explica.
Através delas as frutas seguiriam para uma fábrica de moagem, que extrairia o suco. A matéria-prima seria comprada por uma rede alemã, que atua justamente com a filosofia de reverter lucros às faixas mais exploradas dos países pobres.
Os produtos dessa rede costumar chegar mais caro às lojas e supermercados. Porém, consciente da finalidade desse comércio, uma faixa cada vez maior da população opta por esse tipo de produto.
As amargas laranjas de Fulgraff trazem esse lado cruel do sumo ser tirado da fruta e das pessoas, mas quando ele embarcou em direção às plantações tinha em mente a exploração do trabalho infantil, que é flagrante. Porém, com as campanhas que vêm sendo feitas para amenizar a situação, há um cuidado em esconder os meninos, maquiando assim a realidade.
Experiência humana O cineasta acredita que esteja havendo um aumento de adultos, sem que haja qualquer ligação com o movimento contrário à exploração do trabalho infantil. Isso acontece porque com o desemprego a concorrência está cada vez mais acirrada. ‘‘Não existe conscientização das cooperativas escravagistas’’, afirma.
Como nem tudo é só amargor em seu filme, ele mostra uma experiência bem-sucedida - e humana - numa fazenda de Santa Isabel do Ivaí. Deu-se ali a modernização do trabalho e valorização dos funcionários, dentro de padrões inimagináveis em outras áreas produtoras.
O custo inicial do documentário estava orçado em US$ 144 mil, começando na Alemanha para depois chegar ao interior brasileiro. Por contenção de gastos as primeiras tomadas foram descartadas, e o filme acabou custando US$ 75 mil. Apesar dos números modestos, ‘‘Biter Orange’’ começou a chamar a atenção dos europeus.
Um canal de televisão da revista Spiegel mostrou-se interessado em exibir a fita, mas a austríaca OFR chegou na frente e colocou-a no ar dia 20 de maio. No Brasil a TV Cultura deverá fazer uma apreciação e a GNT (TV a cabo) joga com a possibilidade de exibição, porém não há nenhum acordo fechado.

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